Sábado 19 Maio 2012
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ANÁLISE SETORIAL

Crédito consignado mantém consumo em alta

O setor, que movimentou R$121 bilhões em maio, vai ter papel reponderante na escalada do Brasil rumo à quarta ou quinta posição no ranking mundial das maiores potências em consumo.

De acordo com dados divulgados pelo Banco Central (BC), o mercado de crédito para pessoa física passa por um processo de inflexão, com o fim do crescimento observado nos últimos meses, em que a média diária de concessão de novos empréstimos para os consumidores caiu 0,5% em junho, na comparação com maio. Foi a terceira queda nos últimos quatro meses. Apesar disso, se for considerado o comparativo anual (junho/09 - junho/10), observa-se um crescimento de 16,4% no crédito pessoal e 32,9% no consignado, segundo o BC.

Um dos motivos para a redução na procura pelas linhas convencionais de crédito - identificada pelo BC - é a migração de alguns consumidores para operações financeiras
mais baratas, como o crédito consignado. A modalidade tem arregimentado credores,
porque os bancos que possuem esse tipo de crédito estão investindo, também com campanhas internas. Quem não tem direito opta por crediário de loja e, em último caso, crédito pessoal. Nos moldes atuais, o consignado é considerado recente no Brasil (foi criado em 2003) e está concentrado nos segmentos de tomadores empregados no setor público, onde o débito da parcela de empréstimo é feito diretamente na folha de pagamento, e nos aposentados, que têm o empréstimo descontado nos benefícios a receber.

O economista-chefe do Banco Central, Altamir Lopes, avalia: "A continuidade do crescimento destas operações favorece o recuo da inadimplência no sistema financeiro e, em consequência, dos spreads. Tende, também, a contribuir para a quitação de dívidas de custo mais elevado, melhorando o perfil de endividamento das famílias e elevando sua renda disponível, condição essencial para a manutenção do ciclo de crescimento da economia do país."

Para o presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Renato Oliva, o crédito
consignado vai cada vez mais se consolidar como opção preferencial porque é o crédito
mais barato para a sociedade. "Hoje, do público privado ou do setor de aposentados,
cerca de metade já toma o crédito consignado.
Significa que a outra metade não toma porque não precisa ou porque é um público mais poupador, menos consumidor do que o que toma o crédito, mas o dia em que esse conservador precisar, ele tende a tomá-lo porque é mais barato”, explica.

O que faria esse público tomar o crédito? Márcio Alaor de Araújo, vice-presidente executivo
do banco BMG, responde, definindo o perfil desse consumidor: “O tomador de crédito
acompanha muito as mudanças, já sabe onde está entrando quando resolve aderir a
um produto. Por isso, os bancos, hoje, estão trabalhando no sentido de oferecer o melhor
a esse cliente que sabe das coisas, seja uma oportunidade de investimento para os que
não precisam de empréstimo ou a possibilidade de pagar os juros mais baixos do mercado,
que atingem 2% contra cerca de 6% do crediário em uma loja, por exemplo.”

Araújo vislumbra inúmeros setores que podem se expandir com esse tipo de produto:
“Do total de financiamento imobiliário, no Brasil, apenas 3% são consignados, enquanto
em outros países essa porcentagem alcança 40%. Ainda há um grande mercado onde
implementar operações, considerando-se os atuais 23 milhões de aposentados, 1,5 milhão
de servidores federais e 10 milhões de servidores estaduais e municipais”, diz.
Uma das perspectivas de crescimento para as operações de crédito consignado – que
somaram R$ 121 bilhões no mês de maio, concentradas em empréstimos destinados a
funcionários públicos – está associada, em especial, justamente à ampliação da oferta
de crédito ao segmento de tomadores do setor privado, que participaram com apenas
14% do total mencionado.

Desafios e oportunidades

O aumento do volume das operações de crédito consignado favorece a redução da
taxa de juros média, da inadimplência e do spread, melhora o perfil de endividamento
das famílias e amplia tanto a renda disponível do setor privado como a sustentação
da demanda interna. Em contrapartida, na avaliação de Oliva, existem duas questões
ainda a serem trabalhadas e que se colocam como desafios para esse segmento. Uma
delas é a operacionalização do crédito consignado, que envolve o banco e a empresa
pagadora. “Precisa haver ajustes, já que os bancos e empresas nem sempre operam
na mesma plataforma tecnológica, e isso dificulta a transferência de valores entre as
partes”, avalia.

Outro desafio, ainda de acordo com Oliva, está no fato de a empresa já ter um banco
que coordena a folha de pagamento do funcionário e, junto com o limite de crédito
oferecido a ele, esse banco oferece também alguns outros benefícios, como cheque
especial e vários tipos de cartões, mas não apresenta o crédito consignado. “Para o funcionário ter acesso ao empréstimo consignado, a empresa poderia pensar em trabalhar
com mais de uma instituição financeira, todas prestando serviço, de forma que algumas
delas oferecessem a modalidade. Vejo esse como um dos grandes desafios do setor
privado. No setor público, esse desafio não existe porque os convênios já estão estruturados, e o banco que faz o crédito consignado tem de se associar a um desses bancos já conveniados com a empresa. O setor público tem o crédito consignado como um aliado na gestão de recursos humanos da empresa”, explica Oliva.

Parceria entre bancos e promotoras de créditos

Na visão da ABBC, a parceria entre bancos e lojistas já está bem desenvolvida desde o final dos anos 70 e começo dos 80, quando o setor varejista começou a se associar aos bancos. O varejo, hoje, já entende o financiamento como atrelado ao produto que vende. Junto às promotoras de vendas, ainda há muita parceria a ser consolidada. “É necessário criar um sistema melhor de regulamentação / certificação, porque existe a necessidade de qualificação desse correspondente / promotor de vendas”, exemplifica Oliva.

A ABBC já oferece ao mercado cursos que abordam desde prevenção de roubo a lavagem de dinheiro e terrorismo. Sobre novas capacitações, Oliva sinaliza: “Já existe um projeto que queremos implementar sobre certificação, que seria feita pela ABBC, no formato de provas presenciais para avaliação desses promotores de vendas. Eles seriam cadastrados e passariam por revisões periódicas, uma ou duas vezes a cada ano. Esta é uma forma de aprimorar e qualificar esses funcionários de crédito”, conta.

A propósito de capacitação, o Brasil terá, em novembro, o Primeiro Congresso Nacional de Promoção de Crédito. O evento proporciona a oportunidade de “debater questões de crédito com pessoal de alto nível. Tudo está sendo muito bem administrado”, elogia Márcio Alaor.

Oliva acredita que eventos desse porte, com mais de 180 estandes e intensa programação
de palestras, podem ajudar a dimensionar a real grandeza do setor. “O universo de promotoras de vendas é muito amplo, e ninguém tem a exata dimensão do quão
qualificado seja. Congressos como esse trazem a oportunidade de discutir e aperfeiçoar
processos para melhorar a oferta do crédito e a produtividade do setor”, conclui.


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