Com o marco recorde de 10,5%, a indústria nacional fechou 2010 com o crescimento mais elevado desde 1986. Mas ainda há pontos de atenção: a valorização do real conteve a atividade fabril em setores importantes, que estão cada vez mais vulneráveis à alta de juros e de importação.
Por Elvira Parise
A nossa “garota de Ipanema”, Vinícius de Moraes que nos perdoe, não é mais a mesma: ela agora desfila em biquínis chineses nas badaladas praias cariocas. Considerando-se que o Brasil é reconhecidamente o inventor da melhor versão da famosa peça de banho, é possível concluir que a nossa indústria está perdendo mercados estratégicos por conta da importação desenfreada.
Por outro lado, em uma avaliação superficial do desempenho em 2010, a conclusão é de que houve recuperação e há esperança. O mercado de crédito, particularmente, não desapontou. Mas a evolução do crédito no mercado deve ser analisada com cuidado porque seu crescimento nos últimos anos reflete, em grande parte, o avanço do crédito à pessoa física. Quem faz o alerta é José Ricardo Roriz Coelho, diretor titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec), da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Segundo Roriz, o aporte na indústria apresenta comportamento muito diferente: “A crise financeira de 2008 fez com que o volume de crédito caísse de 9,9% para um mínimo de 9,3% do PIB em março de 2010. O aumento verificado desde então apenas recompôs o volume de operações anterior à crise. Assim, em setembro de 2010, o crédito à indústria estava em 10,1% do PIB”, explica.
Efeitos da crise
É importante lembrar que esse valor inclui tanto o crédito livre quanto o crédito direcionado e que boa parte desse volume ainda reflete as ações de combate aos efeitos da crise por parte dos bancos públicos, particularmente o Banco Econômico de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Ainda como consequência da estratégia de combate à crise, houve uma forte expansão do consumo com base na expansão do crédito para a pessoa física. Este, no início do primeiro mandato de Lula, era de 5,8% do PIB e cresceu acelerada e quase ininterruptamente a partir de 2004, quando chegou aos 15,1% do PIB em 2010. “Paralelamente, o crédito à indústria caiu até atingir os seus menores valores no início de 2006. A recuperação esboçada entre 2006 e 2008 foi abruptamente interrompida e novamente verificou-se queda relativa da participação da indústria no crédito. Apenas nos últimos meses houve expansão do crédito à indústria”, avalia Roriz.
Embora o BNDES ofereça capital de giro associado, esse está em grande parte atrelado ao financiamento de investimentos. Por isso os especialistas acreditam que o gap entre o crédito ao consumo e o crédito para capital de giro esteja aumentando. Roriz sinaliza: “Essa situação pode levar a restrições de oferta e pressões inflacionárias”.
O estudo “Juros em Cascata sobre o Capital de Giro: o impacto sobre a indústria brasileira”, publicado pela Fiesp, mostra que o custo do capital de giro representa nada menos do que 6,7% do valor da produção. Roriz enfatiza: “Caso tivéssemos juros semelhantes aos países com que concorremos, esse custo do capital de giro cairia para algo em torno de 1,9% do valor da produção”.
Menor competitividade
O quadro descrito, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), evidencia uma flagrante perda de competitividade da indústria brasileira em decorrência da valorização do real. Diante desse cenário, analistas do setor reavaliaram para baixo sua projeção de crescimento da indústria em 2011 - de 4% para 3,5%. Por outro lado, graças ao bom desempenho do setor de serviços, imune ao impacto cambial, o PIB tende a crescer ainda na faixa de 4,5%.
Quanto à inflação, a expectativa é de que ela feche o ano em patamares superiores aos de 2010, com índice em torno de 6%. E a indústria, como fica nesse cenário? “Não sabemos a ênfase que será dada pelo novo governo à questão do crédito, mas gostaríamos de ver a agenda para a redução dos juros e do spread retomada pelo governo”, propõe Roriz.
Box:
Produtos estrangeiros correspondem a 21,8% do mercado interno de consumo
Enquanto o consumo está em curva ascendente, a produção industrial -- que recuperou performance em 2010 --, tende a cair 0,5 em relação à previsão de crescimento para 2011, que era de 4,0%. Esta perspectiva de menor crescimento é reforçada pelos resultados do Coeficiente de Exportação e Importação (CEI), divulgados no dia 14 de fevereiro pela Fiesp.
As importações totais da indústria sobre o consumo aparente do País (Coeficiente de Importação - CI) atingiram o maior patamar histórico: 21,8%, valor que superou em 3,5 pontos percentuais o CI de 2009 e representou a maior variação histórica entre os anos analisados. Na comparação com 2008, a alta de 1,7 ponto percentual demonstrou que o CI não só recuperou, mas ultrapassou o nível pré-crise.
O total exportado, no entanto, comparado ao total da produção industrial (Coeficiente de Exportação - CE), apresentou tímida alta em relação a 2009, de apenas 0,9 ponto percentual, atingindo 18,9%. Valor este inferior ao registrado em 2008, quando 19,6% da produção foi exportada, o que representa queda de 0,7 ponto percentual.
O câmbio ainda é um dos principais vilões no aumento dos importados no País. “De cada cinco peças de roupa vendidas no Brasil, pelo menos uma é importada”, anunciou o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, Roberto Giannetti da Fonseca.
Em 2010, a retomada do crescimento, com apoio do governo, aumentou o fôlego exportador de alguns setores, como o automotivo. Mas é o setor de indústrias extrativas que pode obter as melhores performances em 2011. Um exemplo é a demanda da China por minério de ferro, que o Brasil atende, correspondendo à crescente demanda. Neste caminho está o fortalecimento da base exportadora do País, concluem analistas.
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