Responsável por 45% do crédito pessoal do País, o mercado de crédito a não clientes é hoje um dos segmentos mais disputados pelos bancos. Agregado a isso, os direcionamentos políticos na área monetária, o modelo de Basileia II e as adequações às novas normas contáveis internacionais promovem grandes desafios às instituições financeiras brasileiras, principalmente as de pequeno e médio porte, segmento representado pela ABBC, presidida por Renato Oliva, entrevistado da edição.
A Associação Brasileiras de Bancos (ABBC) foi fundada em 1983 com a missão de defender a concorrência e o espaço de atuação de seus, atualmente, 83 associados. A entidade promove a discussão, o debate e o estudo de problemas conjunturais e estratégicos que atingem diretamente os interesses dos afiliados. Oliva aponta diferenciais da ABBC: “A Febraban, por exemplo, representa sistemas bancários, ou seja, os sete bancos que possuem 94% das agências. Os outros 6% de agências estão nas mãos dos bancos menores, que somam mais de 180, com participação significativa em certos segmentos”.
Os pequenos e médios atuam com o correspondente bancário, que é a empresa terceirizada que vende produtos financeiros. Para se ter uma ideia, o Brasil tem 15 mil agências, no total, e 160 mil correspondentes, esses são agentes de expansão de vendas de produtos, uma força de trabalho competente e essencial ao crescimento das operações. Renato Oliva explica em detalhes como se configura esse mercado “financeiro”, que tem grandes diferenças em relação ao sistema bancário dos maiores players do segmento.
Credit Performance- Diante das várias medidas de aperto do crédito tomadas pelo Banco Central e Fazenda desde o fim do ano passado, como você avalia, hoje, a situação de pequenos, médios e grandes bancos? Como fica a concorrência e quais segmentos podem ser estratégicos para enfrentar esse momento de alta inflacionária?
Renato Oliva - A expectativa do Banco Central para que o comportamento do crédito siga uma rota mais moderada em 2011, para não alimentar a "fogueira" da inflação, não é universalmente adotada por conta das diferentes estratégias comerciais dos bancos. O recuo dos bancos menores na geração de novas operações é compensado pela busca de mais "market share" por parte dos grandes bancos. E isto, sem dúvida, gera uma maior concentração bancária, num mercado já altamente concentrado, onde os sete maiores bancos detêm 90% do total dos ativos do sistema. Os bancos de menor porte, hoje, estão recalibrando suas estratégias comerciais para adequá-las à realidade de novos requerimentos de capital e a custos mais elevados de funding. Além disso, estão reordenando seus processos internos para obter ganhos de eficiência e de economias e manter relações de custos versus receitas em patamares adequados, considerando as futuras elevações de custos projetadas por conta da inflação.
CP - Como repercute no setor a primeira mensuração do índice de Basileia sob os critérios dos novos fatores de ponderação de risco estabelecidos em dezembro?
RO - O impacto está muito longe de ser desprezível. Na verdade ele é determinante para o atual esforço dos bancos em suas reformulações comerciais e estratégicas. O Brasil já possuía um dos sistemas financeiros mais seguros e estáveis do mundo e, agora, caminhamos para uma segurança ainda maior. É lógico que a parte mais delicada dessa história é que o custo do crédito para o tomador final irá aumentar.
CP - Você apontou que os bancos, com o pacote antiinflacionário lançado em dezembro, teriam que incluir na sua agenda “as adaptações às novas normas contábeis internacionais, as mudanças na contabilidade das cessões, além da retirada dos estímulos de liquidez colocados durante a crise de 2008 e 2009”. Acrescentou que o cenário de restrição não previu uma coordenação que avaliasse o tipo de impacto sobre os bancos. A falta de coordenação, seis meses depois, resultou de fato em concentração? Os bancos conseguiram introduzir e administrar as mudanças?
RO - Sem dúvida alguma, bancos de tamanhos e nichos diferentes sofrerão consequências diferentes pela introdução do conjunto de medidas macroprudenciais e pela convergência às práticas contábeis europeias. A leitura, prévia ou posterior, dos impactos serve para aprimorar mais ainda o esforço para o aprofundamento dos princípios, de maneira a preservar os segmentos que possuem tempos de assimilação diferentes. Independentemente destas leituras ou releituras, os bancos não estão parados. Estão reorganizando suas estratégias e processos e assimilando rapidamente as medidas.
CP - Quanto à concentração por conta de transações de aquisições ou fusões, inerente aos momentos de transformação do mercado, por que ela é, a seu ver, menos nociva que a concentração orgânica colocada em curso com medidas do governo? Você entende que pequenos e médios foram prejudicados?
RO - Fusões, aquisições, joint-ventures, acordos operacionais, são frutos da percepção e aproveitamento de oportunidades, como a entrada de novos bancos no cenário brasileiro. A concentração orgânica mexe com preços, com motivações comerciais, com equilíbrio de forças correntes. E quem tem mais munição econômica sempre levará mais vantagem em relação a seus concorrentes. O acúmulo desse poderio financeiro e mercadológico tende a concentrar mais ainda esse modelo concorrencial. A grande pergunta para esse item é “qual é o tipo de sistema financeiro que a sociedade brasileira deseja”? Se desejamos um sistema mais rico em diversidade e mais abrangente em termos de escolhas do consumidor, precisamos discutir novos modelos concorrenciais.
CP - Você previu que a criação da Central de Cessão de Créditos (C3) daria fim à insegurança que atingiu o segmento de bancos médios, após a crise deflagrada com o evento do Panamericano. A ideia da central surgiu há dois anos na ABBC, mas foi encampada no final do ano pela Febraban. Como está o processo hoje?
RO - Estamos em fase final de implementação. Houve um esforço conjunto de algumas entidades do Sistema, a ABBC entre elas, capitaneado pela FEBRABAN. E num espaço de tempo recorde, a C3 está entrando no ar. Certamente a C3 será um marco para a maior segurança das operações de cessão de crédito realizadas no mercado.
CP - Como a exigência de padronização das forças de vendas, ou seja, do alinhamento das empresas terceirizadas que oferecem produtos financeiros, deve repercutir no mercado? Você acredita que essa seja uma tendência crescente no mercado, terceirizar grupo de vendas ou cobranças? Grandes e pequenos aderem ao modelo? Por quê?
RO - A padronização da força de vendas terceirizadas é imprescindível para o objetivo de mitigação de riscos operacionais e para o melhor atendimento ao cliente, respeitando regulações que protegem o direito do consumidor. Por isso, todo esforço no sentido da capacitação e da certificação do terceirizado é bem vindo. São mais de 60 mil empresas com algo entre 250 mil e 500 mil pessoas diretamente envolvidas, muitas delas aposentados que descobriram uma nova fonte de renda familiar. Importante ressaltar que essas empresas só coletam documentos e fazem checagem de informações de forma remota. A decisão de concessão do crédito é sempre do próprio banco.
Por Christiane Marcondes Alves de Brito