Sábado 19 Maio 2012
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Maiores de 60 e suas necessidades de consumo

Independentes emocional e financeiramente, com mais tempo e dinheiro para consumirem o que gostam, os “seniores” não se identificam nem com a imagem nem com os produtos que a indústria atual lhes oferece: não querem chinelo, pijama e cama, mas novas opções e desafios. Os setores que já vislumbraram o potencial desse mercado, como o turismo e a construção civil, estão faturando. Conheça aqui outras transações comerciais que essa crescente população demanda.

Reportagem: Maiara Martines
 
O português José Saramago seria um ilustre desconhecido se tivesse morrido antes dos 60. Até essa idade, andava de emprego em emprego, traduzindo e editando num prolongado namoro sem casamento com a arte da escrita.  Aos 56, é demitido de um jornal e decide não procurar trabalho. Começa a escrever pra valer e ganha em 1982, exatamente aos 60, o primeiro reconhecimento, nacional e internacional, pelo livro Memorial do Convento. Seguem-se muitos outros livros e prêmios, chega o amor verdadeiro, Pilar, em 1986, com quem passa a viver, casam-se dois anos depois. 
 
Em 1998, recebe o Nobel de Literatura, poderia “pendurar as chuteiras”, ao contrário, colocou uma mochila nas costas e correu o mundo com a esposa, conheceu dezenas de países, inaugurou uma biblioteca e uma fundação, nunca mais desgrudou do avião e do computador. Morreu por pura exaustão em 2010. Declarou à imprensa que, na sua vida, as coisas melhores chegaram tarde. 
 
O português não é exceção: nesses novos tempos em que a tecnologia prolonga saúde, juventude e libido, o melhor da vida pode estar lá na frente. A previsão do Cies (Centro de Informação para o Envelhecimento Saudável) é de que, em 2050, 30% da população brasileira terão mais de 60 anos. Hoje são 15 milhões de pessoas acima dessa faixa etária, número que corresponde a 8,6% da população, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 
 
Até 2025 o Brasil será o sexto país com maior número de pessoas idosas no mundo. Há uma década os maiores de 65 anos representavam 5% dos brasileiros. Daqui a 50 anos, eles corresponderão a 18%. E a sua vida média que, hoje, é de 73 anos, chegará a 81 anos.
 
Derrubando o mito de que quem perde emprego aos 50 nunca mais se recoloca, o Ministério do trabalho divulgou que, em 2010, o número de assalariados com mais de 65 anos cresceu 12%, o dobro da média. E tem mais: os consultores em recursos humanos afirmam que a tendência é de alta na migração de carreira após os 50. Ou pode haver a troca de profissão por um hobby remunerado.
 
O Agelab, fundado nos Estados Unidos em 1990, é um laboratório de estudos sobre a longevidade cuja função é desenvolver ferramentas que orientem a indústria na criação de produtos seniores. “A maioria dos idosos não gosta das coisas que hoje são feitas para ele”, explica Joseph Coughlin, diretor do Agelab.
 
Inah Antunes Alves, sócia-diretora da Out Of The Box, empresa de pesquisas de mercado com larga experiência e que agora se estrutura para investir mais fortemente neste segmento, concorda: “Desejo fazer as empresas se interessarem por este público, que tem capacidade de consumo e demandas peculiares, mas a maior parte dos briefings que recebo só se preocupa com consumidores até 55 anos”, lamenta Inah.
 
Bancos: Crédito consignado
 
O crédito consignado foi uma revolução para o sistema financeiro e para a sociedade, reforça a ABBC (Associação Brasileira de Bancos) e atende a um contingente considerável de clientes da terceira idade. 
 
A modalidade triunfou por três principais motivos: primeiro pela possibilidade drástica de redução de taxas finais ao cliente. A consignação permite uma qualidade de carteira isenta dos piores aspectos da inadimplência sobre o crédito pessoal sem garantias. E, segundo, pela oportunidade de atuação de diversos agentes econômicos, democratizando a concessão de crédito ao varejo a escalas antes inimagináveis. E, por fim, pela absoluta inserção financeira que o produto proporcionou a consumidores menos favorecidos pelo sistema financeiro, notadamente os aposentados e pensionistas da Previdência Social que ganhavam até 1 salário mínimo ou que moravam em localidades distantes dos grandes centros.
 
Daí vem o espetacular crescimento da modalidade nesses últimos 10 anos. De uma carteira pouco maior do que R$ 10 bilhões em 2001, chegamos a quase R$ 150 bilhões. O segmento movimenta por ano algo em torno de R$ 30 bilhões e os bancos menores, como muitos associados do ABBC, respondem por cerca de 40% desse movimento.
 
"Foi também graças aos Correspondentes e Promotoras de Crédito que esta expansão foi possível, uma vez que estes agentes atuam em todo o território nacional e falam a mesma linguagem dos tomadores de crédito consignado", afirma Luis Carlos Bento, Presidente da ANEPS.
 
Estimativas indicam que o poder de compra da terceira idade corresponde a 17% de todo o bolo nacional, com um movimento de cerca de 13 bilhões ao ano. Em termos de renda, contabilizam R$ 243 bilhões ao ano e arcam com pelo menos metade das despesas de 53% de todos os lares brasileiros.
 
O crédito consignado não favorece unicamente a terceira idade, embora haja uma grande fatia de aposentados na carteira de clientes. Talvez, no futuro, a modalidade amplie ainda mais sua oferta nesse segmento, ao fazer parcerias com empresas que trabalhem especificamente com produtos para a terceira idade, que possam ser financiados pelo crédito consignado.

Turismo: tudo para pegar carona na aventura
 
 O setor de turismo talvez seja o que tenha se articulado para atender a esta nova demanda – até porque já há um processo de institucionalização em curso. O Ministério do Turismo criou, em 2007, o programa “Viaja Mais Melhor Idade”, com pacotes customizados para este público com 50% de desconto em hospedagem. Para viabilizá-lo o ministério fechou parcerias com agências de turismo, hotéis e empresas de transporte, além de estimular a adesão ao programa por meio de concessão de crédito consignado. E os resultados só reforçam o acerto da iniciativa: em três anos 600 mil idosos adquiriram pacotes pelo sistema. Uma das agências envolvidas no projeto, a CVC, há 39 anos no mercado, deve fechar o balanço de 2011 com cerca de 1,5 milhão de clientes desta faixa etária. 
 
Comércio eletrônico: peixões na rede
 
Outro sinal de que novas demandas e hábitos de consumo diferenciados foram impulsionados pela camada mais madura da população é o registrado pelo comércio eletrônico, modalidade lançada há pouco mais de uma década e que a cada dia angaria mais adeptos. Pesquisa realizada pela Nielsen no ano passado, sob encomenda do portal de e-commerce Mercado Livre, mostra que 16% dos vendedores do site tinham idade entre 46 e 60 anos. Um número bastante significativo, considerando-se que já supera ao dos jovens entre 18 e 25 anos, que representa 14%. 
 
Foi com base nela – e de olho no potencial de consumo representado por universo de 60 milhões de brasileiros que acessam a Internet –, que o Mercado Livre lançou, em dezembro passado, a campanha “Somos Velhos”, visando atingir fundamentalmente este público e reforçar sua imagem institucional, com a noção de que a experiência adquirida em 12 anos de existência é a chave para a credibilidade que requer toda atividade dessa natureza. “A escolha do perfil dos personagens na campanha foi uma forma de personificar o conceito de senioridade, segurança e tranquilidade no ambiente do Mercado Livre”.

Construção civil: reinventando o futuro
 
A Tecnisa é uma das pioneiras na adoção da política de priorizar públicos da terceira idade. E essa guinada da empresa só veio a partir de uma constatação de novas demandas à mesa do showroom. “Desenvolvemos alguns empreendimentos mirando o mercado das famílias jovens e, ao analisarmos o cliente final, percebemos que muitos estavam acima dos 50 anos”, revela Patrícia Valladares, diretora de projetos da Tecnisa. A partir daí todo projeto que sai da prancheta da construtora obedece à nova orientação. “Não trabalhamos com empreendimentos exclusivos para a terceira idade. O trabalho que desenvolvemos é o de inclusão da terceira idade no empreendimento”, diz ela.
 
Por Christiane Marcondes Alves de Brito 

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