Presidente do Brasil durante dois mandatos consecutivos, Fernando Henrique Cardoso (FHC) é hoje um dos grandes pensadores e articuladores da política brasileira. Otimista com relação à capacidade do Brasil de amenizar os efeitos de um possível agravamento da crise econômica mundial, concedeu entrevista à Credit Performance, falando sobre a valorização do Brasil no ambiente global, o papel do setor de crédito na redução dos impactos da crise, expectativas sobre o futuro do país e a legalização da maconha. Leia, a seguir.
O currículo do ex-presidente é extenso. Ex-catedrático de Ciências Políticas e Professor Emérito da Universidade de São Paulo (USP), FHC é atualmente presidente do Instituto Fernando Henrique Cardoso (IFHC) e presidente de honra do Partido da Social Democracia Brasileira. Participa de organizações mundiais como a Junta Diretiva do Clube de Madri, o Clinton Global Iniciative (Nova York), Diálogos Interamericanos (Washington), do World Resources Institute (Washington) e do Thomas J. Watson Jr Institute for Studies da Universidade de Browm (Providence).
Credit Performance - Como o senhor avalia a atual posição do Brasil no cenário econômico-político, considerando, inclusive, a participação recente da nossa presidente no evento da ONU?
Fernando Henrique Cardoso - O Brasil ganhou maior preeminência no cenário internacional desde quando foi capaz de estabilizar a economia (1994/1995), mostrou que sabe ser fiscalmente responsável (Lei de Responsabilidade Fiscal) e desenvolveu políticas sociais integradoras, desde o final da inflação até os aumentos contínuos do salário mínimo a partir de 1993 e, finalmente, a ampliação dos programas de transferência diretas de rendas, com as bolsas. Em 1999, criou-se a marca Bric que já denotava a importância da economia brasileira. Além disso, nossa diplomacia de paz e de cooperação com os organismos internacionais é tradicional. É natural que agora, como disse a Presidente Dilma seguindo a tradição, o país fale forte em favor de reformas na economia global e sua voz seja mais ouvida, não só nos foros econômicos, mas nos políticos também.
CP- Particularmente, como o setor de crédito pode colaborar ou minimizar os efeitos de uma crise no Brasil? O presidente Lula estimulou as compras, mas o contexto mudou. Como esta área deve se orientar nesse momento atual?
FHC - O setor de crédito pode, e muito, estimular as compras. O crédito consignado é um bom exemplo. A baixa das taxas de juros também contribue, apesar de que o consumidor brasileiro se acostumou, com a inflação, a prestar mais atenção ao valor das prestações do que ao custo de juros embutido nos preços. Na conjuntura atual, de dificuldades crescentes na economia internacional e de riscos de super-aquecimento da local, é preciso, entretanto, certa cautela. Se o governo não apertar a política fiscal haverá risco de o estimulo às compras redundar em pressões inflacionárias.
CP - Quais as principais ações que podem refrear a possibilidade de crise ou inflação no país?
FHC -Para refrear os efeitos de contágio da crise externa, as reservas do Banco Central servem de colchão amortecedor. Para evitar que as pressões inflacionárias se desatem, não há melhor remédio do que uma combinação entre a utilização moderada das taxas de juros combinada com a contenção do gasto público. Este último é decisivo para evitar os efeitos inflacionários. Mas, política econômica é "navegação". Não há receitas prontas e acabadas. É preciso modular as medidas segundo as conjunturas.
CP - Em recente artigo, o senhor foi bastante polêmico por ter mencionado que o PSDB deveria esquecer as massas e se voltar para a classe média. O que o senhor quis dizer com isto?
FHC- Eu não disse que o PSDB deveria abandonar as massas, eu disse que uma parte do "povão" estava aparelhada pelo governo do PT, principalmente através das bolsas família e que havia outras partes da população, as "classes médias emergentes", por exemplo -- e que fazem parte do povo -- mais suscetíveis a serem representadas por um partido como o PSDB, de vocação progressista e modernizadora. Foi só isso. O resto foi exploração eleitoreira dos adversários para fazer crer que o PSDB é "elitista", como se a classe C fosse conservadora...
CP - Recente estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que 9 dos 13 aeroportos que estão sendo modernizados para a Copa do Mundo de 2014 não ficarão prontos a tempo para o evento. O senhor acredita que ainda será possível reverter esse quadro?
FHC - É possível sim, reverter o quadro. Mas a que custo? Menos transparência nas prestações de contas, preços mais altos para fazer as coisas à última hora e depressa e no lugar de boas instalações definitivas, "puxadinhos" para quebrar o galho...
CP - A revista Economist fez uma matéria recentemente mostrando que a economia brasileira vai muito bem, mas tem problemas ainda graves, como o alto gasto público. Quais são os principais problemas da nossa economia hoje, na sua opinião?
FHC - Deixando de lado o perigo mais imediato -- a inflação causada pelos gastos excessivos dos dois últimos anos do governo Lula -- há a questão da valorização do real. Esta, nas circunsâncias atuais, dificilmente será resolvida com base em restrições à entrada de dólares. Requererá medidas que aumentem a produtividade a médio prazo para permitir que nossas manufaturas possam competir no exterior e enfrentem a concorrência dos produtos importados que se tornaram baratos. Isto implicará em retornar a agenda esquecida das reformas: tributária, trabalhista etc. Além do mais há o problema dos juros elevados (para conter a inflação, dado os gastos correntes excessivos do governo) que acabam por atrair mais dólares vindos para especular no curto prazo e valorizam o real.
Sem falar na necessidade premente de investimentos em infraestrutura, como nos aeroportos. Convém não esquecer também que nosso futuro dependerá de investimentos em educação, ciência, tecnologia e inovação.
CP -Segundo a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), o chamado custo- Brasil encarece os produtos brasileiros em 36% na comparação com aqueles fabricados nos EUA e na Alemanha, e nem estamos comparando com a China. Como equacionar esse problema?
FHC - Foi o que mencionei na resposta anterior.
CP - O senhor acredita que esse elevado custo para se produzir aqui no País vai levar o Brasil a um processo de desindustrialização nos próximos anos? Algumas indústrias já dizem que isso está acontecendo.
FHC - Em termos relativos, sim. A participação das manufaturas no PIB ou nas exportações já está caindo.
CP - O senhor acaba de fazer 80 anos. O que ainda espera ver acontecer no Brasil?
FHC - Não posso presumir quantos anos ainda viverei. Se é para saber o que desejo, é simples: mais decência no país, com corruptos pagando o preço, e mais bem estar para todos.
CP - O senhor tem se dedicado nos últimos anos a regulamentar o consumo da maconha. De que forma o tráfico de drogas prejudica a economia? Por que o senhor decidiu expor sua opinião sobre esse tema agora?
FHC - Resolvi agitar a questão das drogas porque estão comprometendo as famílias, aumentando a criminalidade e a corrupção e minando as instituições democráticas. É só ver o que acontece no México ou na América Central, para não falar da África Ocidental. O Brasil é o maior consumidor de drogas, depois dos EEUU. E a política atual, chamada de "guerra às drogas" fracassou: na Colômbia, depois de anos de luta e militarização, houve progressos na segurança e no desmantelamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARCS), mas a oferta de coca não diminuiu. Logo, tentemos outro caminho: reduzir o consumo, como se fez com os cigarros. Isto não quer dizer "legalizar" as drogas ou liberar seu uso. Quer dizer, descriminalizar os usuários, isto é, não colocar na cadeia quem consome, pois nela vão aprender a usar drogas mais fortes e outros crimes, mas tratá-los como pessoas e, quando for o caso, como pacientes que requerem serviços de saúde. A maconha no Brasil é "proibida" -- na lei os usuários já não deveriam ir para a cadeia -- mas na prática todos os que querem fumá-la, especialmente os jovens, sabem onde encontrá-la, só que para buscá-la vão "ao crime", entram em contato com os traficantes, os bandidos. É necessário, com prudência e sem que haja uma receita segura sobre as consequências, experimentar alternativas, como na Europa e em alguns estados americanos. Por fim, os americanos gastam 40 bilhões de dólares para prender usuários e perseguir traficantes, enquanto os programas assistenciais e de prevenção mal alcançam um bilhão de dólares. É um absurdo.
CP - O senhor sente falta do poder?
FHC - Não, não sinto falta do poder, até porque para continuar a exercer ação pública como eu desejo, não eleitoral ou partidária, o que conta é a influência, e esta eu tenho.
Por Regina Rebello