Domingo 26 Maio 2013
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ANÁLISE

Natal de esperança

O gradual aquecimento da economia brasileira inspira a confiança de líderes de diversos setores, que apostam uníssonos num crescimento nas vendas a crédito.

Nesta mesma época do ano passado, poucos se arriscavam a traçar prognósticos para o Natal. Os que ousavam emitir alguma opinião, se restringiam a tatear perspectivas incertas. Afinal, foi nesse período que em 2008 a crise financeira internacional começou a mostrar suas garras e a assombrar até mesmo os mais otimistas empresários.

Neste ano, contudo, o cenário é bem diferente. Apesar da desaceleração que alguns setores apresentaram no primeiro semestre em decorrência da crise, paira no ar um otimismo em relação ao final do ano. Setores representativos da economia brasileira prevêem aumento na oferta de crédito nesse período, movimento que, na visão deles, deve contribuir para elevar o desempenho do Natal em percentuais que variam de 0% a 15% frente a igual época de 2008.

Para Victor Loyola, Superintendente de Crédito e Cobrança do Global Consumer Group Citibank Brasil, o período de maior turbulência no mercado já foi superado e as "torneiras" do crédito, apesar de ainda não plenamente abertas, voltaram a irrigar a economia com vazão maior do que no período da crise, mas inferior ao período imediatamente anterior a ela. "Nesse sentido, esse Natal será melhor do que o do ano passado, quando estávamos vivenciando um aprofundamento da situação econômica, mas deve ser inferior ao Natal de 2007, quando navegávamos em plena euforia de uma economia crescendo em ritmo acelerado. Em que pese o fato do final de ano não ser o momento de maior velocidade em concessão de crédito, pois o consumidor em geral tem mais liquidez nessa época (13º salário, participação nos lucros etc)", explica Loyola. E também acrescenta: "Seguramente esse Natal trará bons presságios para um esperado ano de recuperação em 2010".

Marcel Solimeo, superintendente do Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), é dos que faz coro em defesa de tempos melhores no Natal de 2009. Ele diz acreditar que as vendas no varejo devem apresentar recuperação depois de vários meses em queda, muito por conta das melhores condições do mercado.

"Temos sentido uma retomada gradual na oferta de crédito com a volta ao mercado dos bancos menores e das financeiras. Além disso, a queda da Selic tem possibilitado juros mais baixos e prazos mais longos, o que contribui para aumentar a demanda dos consumidores por crédito e, consequentemente, o consumo das famílias", comenta Solimeo. "Apostamos num crescimento de 2% a 3% nas vendas por conta do Natal."

Apesar de acreditar num crescimento da oferta de crédito, Solimeo mantém uma análise fria sobre essas taxas de expansão. "As altas de 25% a 30% ao mês que a oferta de crédito vinha apresentando em 2007 e início de 2008 não devem voltar a se repetir, por mais significativo que o crédito seja para o comércio", lamenta o superintendente da ACSP.

Embora não haja um consenso, estima-se que de 35% a 40% das vendas do varejo se dêem com algum tipo de crédito. Há setores, como o de bens duráveis, em que esses percentuais chegam a 75%. Outros, como o supermercadista, se mantêm entre 10% e 15.

Maiores apostas

Para Solimeo, as vedetes do Natal de 2009 serão os eletroeletrônicos, móveis e automóveis, produtos cuja aquisição está intimamente ligada à oferta de crédito. O economista Fabio Pina, da Fecomercio-SP, também aposta nos automóveis e eletroeletrônicos.

"Estamos com os fatores macroeconômicos controlados, não tivemos um índice de desemprego tão grande quanto se imaginava e o nível de consumo se manteve. Com os bancos privados voltando ao mercado de crédito, acredito que teremos um crescimento no Natal bastante considerável com os automóveis e eletroeletrônicos, até porque a base de comparação, que é o final de 2008, é muito fraca", justifica Pina.

Recorde histórico

Luiz Montenegro, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), vai além. Para ele, se não houver mudança no ambiente macroeconômico, a carteira de crédito do setor pode subir de 10% a 15% neste ano, chegando a um saldo total de R$ 153 bilhões a 160 bilhões. Se esse desempenho se confirmar, será um recorde histórico em valor, mas não percentualmente, porque essa indústria já registrou altas mais polpudas.

"O crédito de veículos a pessoa física representa mais de 5% do total do PIB brasileiro, ou seja, R$ 150 bilhões das riquezas do País vêm do crédito concedido àqueles que desejam comprar um automóvel novo ou usado", ilustra Montenegro. "Apesar da instalação da crise no Brasil, o crédito aumentou significativamente nos últimos períodos, por isso acreditamos que continuará a crescer."

Até mesmo o setor supermercadista, que historicamente não se ressente das variações de oferta de crédito, se diz otimista com o fim do ano. Sussumo Honda, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), diz que atualmente 40% do movimento dos supermercados já se dá com cartões de débito, crédito e de bandeira própria. Estes últimos já respondem por até 15% do movimento de algumas redes.

"O parcelamento nos cartões de bandeira própria é uma tendência que deve se manter no Natal", opina Honda. "As grandes redes têm adotado políticas de estímulo do uso desse tipo de crédito em datas comemorativas, ao oferecer prazos mais longos de pagamento, por exemplo. Isso tem se refletido diretamente na alta das vendas, porque o mix das lojas está cada vez mais diversificado e com produtos de maior valor agregado, o que acaba justificando a compra a crédito."

Atacado

Muito embora Natal seja período basicamente de varejo, as perspectivas para o crédito no atacado também são positivas. Pina, da Fecomercio, diz acreditar que no quarto trimestre de 2009 deve haver uma recuperação. Ele lembra que o fim de 2008 foi muito complicado, pelo fato de as grandes empresas que captavam recursos no exterior terem se voltado para o mercado de crédito doméstico.

"Elas roubaram espaço das pequenas e médias empresas, que foram asfixiadas", explica Pina. "Agora estamos assistindo a um reaquecimento gradativo da economia. Assim, esse mercado de crédito deve se recuperar no quarto trimestre deste ano, retomando os patamares que antecederam a crise."

Todo esse otimismo com o crédito no atacado, que é ainda mais acentuado no varejo, leva a crer que de fato o pior já passou. Chegou a hora de preparar os cofres para um Natal mais gordo do que o do último ano.

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