Henrique Meirelles fala do mercado e de cadastro positivo “Não há como um país aprofundar seu desenvolvimento econômico sem um sistema financeiro eficiente.O setor financeiro acaba por alocar com maior eficiência recursos que seriam dispersos na economia.” Henrique Meirelles, presidente do Banco Central
O tom seguro e sereno, essencial para enfrentar a mais grave crise financeira mundial desde 1929, é o mesmo quando o assunto é o futuro da economia brasileira. Mas uma boa dose de entusiasmo ganha espaço na voz do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, quando discorre sobre os motivos que fizeram o País se recuperar tão rapidamente. Ele também não esconde o orgulho do trabalho realizado pela equipe que comanda há quase sete anos. "Hoje somos referência de regulação financeira em muitas áreas e as propostas sugeridas internacionalmente estão em linha com o que já fazíamos no Brasil antes da crise", diz com a mesma propriedade de quem conduziu a elevação das operações de crédito de 22% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2003, para 45% em setembro deste ano.
Olhando para o passado, o presidente do BC afirma que a crise trouxe um importante aprendizado para a indústria do crédito e cobrança: na fase de expansão do crédito as medidas prudenciais devem ser reforçadas e não enfraquecidas. Entre as medidas necessárias para o maior desenvolvimento do crédito, ele aponta a implantação do cadastro positivo, maior rigor na análise de crédito pelas instituições financeiras e adoção de séries históricas mais longas para gerenciamento de risco.
Credit Performance - O cadastro positivo é uma proposta há muito reivindicada pelo setor de crédito e necessária para o desenvolvimento deste mercado. O projeto aprovado na Câmara e agora em discussão no Senado foi recebido com reservas. O sr. acredita que, no formato aprovado, ele contempla as evoluções e demandas deste mercado e atuaria de fato para valorizar o bom do mau pagador?
Henrique Meirelles - Sem dúvida que o cadastro positivo desempenhará importante papel para a ampliação do crédito e para a redução do spread bancário. No entanto, como mencionado, há no projeto em tramitação alguns pontos controversos a serem equacionados, mas o Congresso Nacional tem legitimidade para discutir o projeto como considerar adequado, sendo que os diversos setores da sociedade têm também o direito legítimo de se manifestar a respeito.
Credit Performance - Dados do Banco Central mostram que a inadimplência é responsável por 25% do spread bancário. É possível excluir esse componente da formação do spread com a aprovação do cadastro positivo?
Meirelles - O País precisa do cadastro positivo para ter um sistema ainda mais saudável e, dessa forma, reduzir o risco impulsionando a concessão de crédito com taxas de juros menores aos tomadores - os grandes beneficiários da medida. Mas, mesmo assim, o risco de crédito não deixará de existir. No caso do crédito consignado, por exemplo, o risco de crédito foi reduzido pela garantia de pagamento pelo empregador do tomador de recursos; entretanto, o histórico de pagamento em dia não é garantia absoluta que o pagamento será honrado em dia.
Credit Performance - A relação crédito bancário/PIB no Brasil deve chegar a 50% no final do ano, um percentual ainda distante do que se verifica em economias desenvolvidas como Estados Unidos, Japão e Europa (acima de 160%). O que fazer para impulsionar o crédito?
Meirelles - O Governo vem trabalhando em várias frentes para a continuação do processo de ampliação do crédito e a criação do cadastro positivo em muito contribuirá para tal fim. Da mesma forma, caberia ainda destacar outras frentes a contribuírem nesse processo, como a recente regulamentação de fundos garantidores - os recém-criados FGI (Fundo Garantidor de Investimentos) e FGO (Fundo Garantidor de Operações). O próprio ambiente de estabilidade macroeconômica e o crescimento consistente da economia estimularão a ampliação do crédito. A propósito, desde quando assumi o Banco Central, em 2003, as operações de crédito equivaliam a 22% do PIB. Em setembro deste ano, chegamos a 45,7%.
Credit Performance - O sr. tem sido cauteloso ao evitar dizer que a crise já passou. No caso do Brasil, a regulação do sistema financeiro evitou graves danos para a sociedade e tornou o País reconhecido no exterior. Que lições o Brasil mostrou com essa crise?
Meirelles - A lição que fica é a de que a opção pela estabilidade econômica e trabalho intenso foi correta para promovermos o crescimento econômico com redução de desigualdades. O sistema de metas para inflação, o regime de câmbio flutuante, a política de acumulação de reservas e a dívida pública cadente foram fundamentais para o fortalecimento da economia brasileira. Nesse contexto, a solidez do sistema financeiro nacional nos fez passar pela crise sem problemas estruturais, apenas de liquidez e que foram gerenciados pelo Banco Central com grande disposição. Hoje, somos referência de regulação financeira em muitas áreas e as propostas sugeridas internacionalmente estão em linha com o que já fazíamos no Brasil antes da crise. O que quero enfatizar é que não podemos nos acomodar, pois devemos persistir em aprimoramentos e ser prudentes para evitar desequilíbrios.
Credit Performance - Quais as oportunidades de melhoria e atenção que a crise trouxe para o setor de cobrança e crédito?
Meirelles - A maior lição que a crise trouxe para o setor de crédito e cobrança foi que os problemas são, na verdade, gerados na fase de expansão e são apenas explicitados durante a crise. Acredito que medidas prudenciais que exijam aumento de provisionamento e colchões de liquidez durante fase de expansão se tornaram essenciais. Da mesma maneira, é nesta fase que mecanismos de cobrança e análise de crédito devem ser reforçados e não enfraquecidos. Além disso, há um problema com o tamanho das séries históricas usadas para gerenciamento de risco. Elas devem ser mais longas, com vistas a refletir mais adequadamente o risco.
Credit Performance - Uma significativa parcela da sociedade brasileira teve acesso ao consumo pelo aumento da renda média das famílias e, consequentemente, veio o amadurecimento do mercado de crédito. Sob esse ponto de vista, o Brasil tem um mercado maduro e compatível com a realidade?
Meirelles - Em relação à realidade presente, considero que sim, mas a economia brasileira é muito dinâmica e devemos estar atentos às necessidades para progredir sempre em direção a um sistema financeiro sólido que possa auxiliar e jamais atrapalhar o desenvolvimento econômico brasileiro.
Credit Performance - Qual a importância da indústria de Crédito e Cobrança no desenvolvimento do Brasil?
Meirelles - Não há como um país aprofundar seu desenvolvimento econômico sem um sistema financeiro eficiente. O setor financeiro acaba por alocar com maior eficiência recursos que seriam dispersos na economia e, desta maneira, possibilita incremento dos investimentos e do crescimento econômico.
Credit Performance - As empresas ainda enfrentam problemas de inadimplência. O desconto de duplicatas, por exemplo, chegou a 8,5% de inadimplência em julho. O que pode ser feito para melhorar esse indicador, além dos benefícios naturais da retomada do crédito?
Meirelles - O cadastro positivo é um ponto muito importante, mas não apenas isso: maior transparência nos balanços poderia reduzir consideravelmente o risco de crédito. A melhora na análise de crédito por parte de instituições financeiras, tornando a mais rigorosa, poderia também diminuir substancialmente a inadimplência.
Credit Performance - No 5º Congresso Nacional de Crédito e Cobrança, o sr. falou das "Lições aprendidas, novas oportunidades". Quais as questões que devem ser colocadas na agenda da sociedade brasileira?
Meirelles - A construção de fundamentos sólidos da economia ao longo dos últimos anos permitiu que as medidas precisas e no tempo certo do governo brasileiro tirassem o País da crise mais rapidamente do que em outros países. No entanto, não perdemos de vista que há necessidades prementes de investimentos em educação, segurança e infraestrutura para que possamos garantir o crescimento futuro da economia. Há reformas importantes que o Brasil não poderá deixar de realizar, como a simplificação da estrutura tributária, e que poderão melhorar o quadro institucional brasileiro e acelerar os investimentos e o desenvolvimento econômico.
Consultas sobre serviços info@cmspeople.com
® CMS | Credit Management Solutions S.A. | Todos os direitos reservados