Quinta 29 Julho 2010
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ENTREVISTA

Entrevista com Sr. Antônio Gaspar

“O mercado português continua em franco crescimento e daí resultam oportunidades de negócios que para as empresas portuguesas do setor, quer para outros “players” internacionais. Relativamente às empresas brasileiras o fator língua será certamente determinante numa boa parceria.”



Sr. Antônio Gaspar
Professor universitário (Ph.D) e Diretor Executivo APERC – Associação Portuguesa das Empresas de Recuperação e Gestão de Crédito

Credit Performance: Qual é o perfil do consumidor português?

AG: É difícil dar um perfil tipificado do consumidor português. Eu diria que existem vários tipos de perfis e tal tem a ver com a localização geográfica onde o cidadão se encontra inserido; com o extrato social a que pertence; com a sua atividade profissional ou com o tipo de necessidades pontuais que num determinado momento experimenta.

Credit Performance: Como ele prefere ser abordado?

AG: A abordagem comercial geral é sempre feita de três formas: direta, através dos meios de comunicação social ou na visita que faz ao comércio ou aos serviços que necessita.

Credit Performance: Como se faz a gestão dos contratos, da carteira de cobrança em Portugal?

AG: As empresas credoras (empresas financeiras), quando registam algum incumprimento contratual, primeiramente tentam internamente resolver a situação; caso não consigam, contratam em regime de "outsourcing" empresas especializadas na recuperação de crédito vencido, que por sua vez, irão tentar junto dos clientes (telefone ou visita presencial), recuperar os montantes em dívida e que lhe foram confiados pelos seus clientes.

Credit Performance: Qual é o melhor timing para ter a maior eficiência na cobrança?

AG: Sem dúvida nenhuma que serão os primeiros 15/20 dias após a data de vencimento do crédito.

Credit Performance: Quais as oportunidades para as empresas brasileiras da indústria de crédito e cobrança em Portugal?

AG: O mercado português continua em franco crescimento e daí resultam oportunidades de negócios que para as empresas portuguesas do setor, quer para outros "players" internacionais. Relativamente às empresas brasileiras o fator língua será certamente determinante numa boa parceria. Particularmente não aconselho qualquer empresa brasileira a instalar-se em Portugal de "raiz". Sou partidário, isso sim, que procure uma empresa portuguesa de referência no setor, no sentido de estabelecer uma primeira "partnership" como porta de entrada no país e no setor. Depois e com a experiência acumulada, poderão pensar numa expansão ou noutro tipo de posicionamento estratégico (fusão ou mesmo aquisição).


Credit Performance: O sr. falou também em redução do número de processos na Justiça. Como foi feito este trabalho?

AG: A meritória atividade dos nossos Associados - recuperação de montantes significativos e resolução de processos - acabou por aliviar os Tribunais desses mesmos processos, que caso não tivessem sido recuperados pelas empresas de recuperação extrajudicial e amigável de créditos, teriam terminado nos Tribunais com uma dupla vicissitude: agravavam o sistema judicial português e as contas de resultados dos seus clientes, uma vez que entrando o processo em Tribunal, chega a demorar anos o encontrar duma solução (sentença).

Credit Performance: O endividamento em Portugal é próximo a 140% da renda. O que seria compatível com a estrutura econômica de Portugal?

AG: De fato o nível de endividamento das famílias portuguesas sobre o seu rendimento disponível, é há já alguns anos, insuportável, desde o ponto de vista económico e de gestão financeira dos orçamentos dos agregados familiares. Não é sustentável este nível de endividamento. Por isso mesmo, todos os meses desde há cerca de dois anos, que o nível de incumprimento contratual por parte das famílias não para de aumentar. Agora potenciado com a crise económica e financeira que tem varrido o mundo, tal torna-se ainda mais evidente. Não existe um número que lhe possa adiantar, mas seguramente sempre abaixo dos 100%.

Credit Performance: O sr. pode explicar melhor a Lei de Enquadramento Setorial?

AG: O setor das recuperações extrajudicial e amigável de créditos, não tem um enquadramento legal em Portugal. Existe um Ante-projeto de Decreto-Lei que se destina a enquadrar legalmente a nossa actividade há mais de dois anos. Este documento encontra-se no Ministério da Economia, com o Secretário de Estado do Comércio, mas não obstante as nossas múltiplas insistências junto deste órgão governamental, e junto da imprensa escrita e falada, tais iniciativas ainda não produziram efeitos práticos. Iremos no decorrer de 2010 incrementar o nosso número de iniciativas no sentido de obtermos o enquadramento legal do setor ainda no decorrer de 2010. No entanto, gostava de sublinhar e deixar claro, que não obstante não existir esse enquadramento legal, as empresas continuam a trabalhar e a ajudar os seus clientes na recuperação dos montantes dos créditos em incumprimento contratual.

Credit Performance: O setor é muito regulamentado pelo governo?

AG: Como expliquei na questão anterior, pura e simplesmente não existe enquadramento legal desta atividade em Portugal.

Credit Performance: O sr. explicou que o ideal é que 90% do consumo seja financiado com salário, mas que hoje 45% é feito pelo financiamento ao crédito. Poderia explicar melhor?

AG: O Consumo Privado é uma das componentes do PIB de cada país. E aquela rubrica que tem mais peso em qualquer PIB mundial. O problema das economias mais deficientes é que o Consumo Privado não é sustentado na sua grande parte pelos salários, mas sim pelo endividamento. Isto é, o cidadão quer aceder a um conjunto de bens e serviços mas para os quais não possui rendimento para comprar a dinheiro. Então contrai um financiamento junto de uma entidade financeira e acaba por aceder a esse bem ou a esse serviço pela via do crédito. Quando um modelo de crescimento assenta o seu Consumo Privado em 40 ou 45% (ou mais) no recurso ao crédito, está completamente enviesado e em termos futuros é um modelo em ruptura e que irá causar perturbações sociais e familiares (ao nível da gestão dos orçamentos familiares) muito fortes.

Credit Performance: Qual é o tipo de crédito que tem maior participação no mercado português?

AG: O crédito concedido a clientes particulares e com maior representatividade no mercado português, é o Crédito à Habitação (80%). Os restantes 20%, são divididos entre, o crédito pessoal, crédito automóvel, cartões de crédito e leasing.

Por: Luciana Felletti, Gerente de desenvolvimento corporativo, CMS Brasil
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15 anos Professor Universitário
18 anos Alta Direcção Bancária (Banco Santander)
10 anos Director Bancário (Crédit Lyonnais)
2 anos Director Executivo de Associação Empresarial - APERC

EDUCAÇÃO
Ph.D em Economia
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