Quinta 29 Julho 2010
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PINGUE-PONGUE

Caixa consolida revolução no sistema de crédito

Há quatro anos, a profissional de carreira Maria Fernanda Ramos Coelho “furou a fila” e não só afastou os sucessores naturais ao cargo como se tornou a primeira presidente mulher da Caixa Econômica Federal. Assumiu com a missão de revolucionar o sistema de crédito, segundo anunciou o Ministro da Fazenda, Guido Mantega. Jovem, pernambucana, ex-sindicalista, a executiva capitaneou com garra e simpatia a reestruturação operacional e o processo atinge, agora em 2010, a maturidade, embasando a plataforma de lançamento de novos negócios da tradicional instituição, que completa 150 anos em 2011. Christiane Marcondes Alves de Brito, especial para a Credit Performance

Credit Performance - Ex-sindicalista, correndo por fora na sucessão à presidência da CEF, primeira mulher a assumir o cargo, quais os maiores desafios e conquistas nessa arrojada empreitada?

Maria Fernanda - O que mais me instiga na minha administração, considerando-se que completo 26 anos de Caixa no dia 1.º de maio e quatro anos de presidência em março, foi a oportunidade de construir, a partir de 2007, um novo modelo de gestão, que incluiu revisão de valores e ações de mobilização nas quais a instituição reforçou a sua identidade de agente de transformação social, que pode e deve proporcionar grandes avanços na comunidade em geral.


Credit Performance - Como aconteceu e está acontecendo esta revolução no sistema de crédito da CEF?

Maria Fernanda - A revolução de crédito é resultado de uma estratégia política do governo, que elevou o PIB de 22% a 45%, desde 2003, com a democratização de acesso ao crédito, principalmente por parte das famílias, uma das alavancas do consumo e desenvolvimento. Com a medida, ampliamos 4,9 vezes o volume de crédito no mercado e obtivemos a inclusão de mais de 20 milhões de pessoas no sistema financeiro, seja por meio de abertura de conta bancária ou da criação de micro e pequenas empresas. Nossa estratégia fundamental é consolidar a posição relevante da Caixa no mercado como instituição financeira promotora do desenvolvimento econômico relevante para a democratização do crédito. Esta, que é a essência da CAIXA, havia sido esquecida durante o período das privatizações. Acredito que o fato de avançarmos significativamente na concessão de empréstimos em 2009, com qualidade e responsabilidade, demonstra que temos capacidade técnica e operacional. A "revolução" que empreendemos internamente garantiu o resultado, principalmente, na busca de novas estruturas de gestão e governança, tecnologia e mudança cultural. Particularmente, a atuação junto à pessoa jurídica (PJ) demonstra todo esse processo, pois, historicamente, não tínhamos uma atuação relevante no setor e, nos últimos anos, essa linha de negócio ganhou grande destaque.


Credit Performance - A crise econômica global, de 2008, atrasou o processo de reestruturação?

Maria Fernanda - De modo algum, porque o governo bancou o crédito. Enquanto os bancos privados restringiram sua liquidez, os estatais não puxaram o freio de mão, continuaram atuando no mercado. Agora, em 2010, estamos consolidando esse novo modelo. Temos como missão nos tornarmos uma instituição estratégica do Estado brasileiro na sustentação deste novo ciclo de desenvolvimento econômico. Neste sentido, a perspectiva é ampliar nossa carteira total de crédito na ordem de 25% a 30% para este ano. Também está previsto concurso público para contratação de 5.000 novos empregados, o que permitirá ampliação de nossa rede de agências. Ao mesmo tempo, estudamos oportunidades de aquisições no mercado que venham a ampliar nossa carteira de produtos e garantir complementaridade operacional de nossas atividades. Ou seja, o fato de nossa grande rede, distribuída em todo o país, ser extremamente útil para realização de negócios e relacionamento com os clientes, é um fator competitivo que só se fortalece com essa ampliação da rede bancária.

Credit Performance - Ao que parece, só há motivos, então, para comemoração, já que a CEF completa 150 anos em 2011. Alguma surpresa para a data?

Maria Fernanda - O sesquicentenário não pode ser comemorado em um só ano, por isso já entramos em clima de aniversário. A grande novidade é que estamos abrindo uma superintendência cujo objetivo é dar atendimento à Petrobras e ao BNDES. A proposta é focar os setores que trabalham em toda cadeia energética. Vamos investir mais de um milhão de reais em tecnologias alternativas, como a da energia eólica, entre outras.


Credit Performance - A aposta alta em energia vem se somar aos já consagrados investimentos em cultura e esporte?

Maria Fernanda - Sem dúvida, na política em relação aos esportes priorizamos o atletismo, que tem forte identidade com a instituição, porque beneficia populações de baixa renda. Além disso, temos ginástica artística, rítmica e somos patrocinadores oficiais do paradesporto. Só para esse ano, estimamos um investimento de quase 40 milhões de reais no esporte.


Credit Performance - Falando em números, como está o posicionamento da CEF hoje no segmento de crédito e no ranking das maiores?

Maria Fernanda - Em 2009, nós tivemos um crescimento de 56% na carteira de crédito, com participação de 8,9% no mercado total. Além disso, historicamente, estamos com os menores níveis de inadimplência. Em 2010, pretendemos ampliar esse crédito - que chegou a 125 bilhões - para uma soma entre 180 a 200 bilhões. O destaque maior é em habitação, segmento em que nossa participação de mercado chegou a atingir a marca de 83,6% no último trimestre de 2009, sendo que, em média, essa participação é de aproximadamente 75%. Particularmente no crédito a pessoa física (PF), nossa participação de mercado encontra-se em cerca de 4,5%. Mas é no crédito a PJ, como eu já disse, que temos obtido uma maior satisfação, pois saímos de praticamente zero de participação em 2002 para fecharmos 2009 com aproximadamente 4,6%.

Credit Performance - Na habitação popular, ainda é a instituição que mais financia crédito?

Maria Fernanda - A Caixa é reconhecida pela excelência na gestão de fundos públicos e privados e pela grande experiência no financiamento a projetos de infraestrutura e saneamento. Mais recentemente, no período da crise, ampliou seu relacionamento com grandes empresas de diversos setores. Mas, sem sombra de dúvida, habitação continua sendo um dos carros chefes de nossos negócios. Atingimos em 2009 R$ 47 bi de aplicação, sendo que acreditamos superar em 2010 a marca histórica de 1 milhão de unidades habitacionais financiadas com mais de R$ 55 bi aplicados mantendo, com isso, a liderança absoluta no segmento com mais de 75% de participação do mercado.

Credit Performance - A CEF fala também na inclusão de 4 milhões de pessoas que ainda não possuem conta corrente no sistema bancário. São pessoas da classe C, D e E? Elas serão contempladas com quais tipos de política ou planos de concessão de crédito?

Maria Fernanda - Esta meta será alcançada com a parceria do Ministério do Desenvolvimento Social, vamos fechar 2010 com 4 milhões de beneficiários do Bolsa Família contando com conta bancária. Hoje já temos algo próximo a dois milhões de beneficiários bancarizados. No total, atualmente são 7,1 milhão de clientes com contas simplificadas, correntistas que, em muitos casos, nunca haviam anteriormente entrado num banco. Essas contas permitem movimentação, execução de pagamentos com cartão de débito e acesso a crédito, que já conta com um saldo de utilização, no caso do crédito rotativo, de R$ 65 milhões. Nossa meta é fechar 2010 com um total de aproximadamente 10 milhões de contas simplificadas, consolidando a Caixa como referência na inclusão bancaria.

Credit Performance - Quais os novos produtos que a CEF pretende ampliar ou criar para os consumidores das classes C, D e E em pleno crescimento? Vai privilegiar carros, eletrodomésticos, móveis ou investir mais numa carteira habitacional?

Maria Fernanda - Buscar adequar produtos às necessidades dos clientes é uma regra de qualquer instituição financeira e, na Caixa, isso não é diferente, tendo como foco todos os públicos, mas dedicando especial atenção a público de baixa renda, pequenas e médias empresas. A recente parceria que firmamos com o Panamericano, a partir da compra de parte de seu controle acionário, permitirá, por exemplo, obtermos maior ênfase em linhas de negócios antes pouco desenvolvidas, como financiamento a automóveis. No caso de eletrodomésticos e móveis, o nosso Crediário Caixa Fácil tem sido um sucesso junto às pequenas, médias e grandes redes lojistas. Com menos de um ano, já conta com um saldo contratado de R$ 100 milhões no financiamento das compras de clientes do varejo, sem que estes necessariamente sejam nossos correntistas.

Credit Performance - Quais as garantias de bom retorno desse investimento? Como minimizar a inadimplência?

Maria Fernanda - Com gestão e controle do risco. Este talvez tenha sido, nos últimos seis anos, um de nossos maiores objetivos. Ou seja, garantir estruturas de governança, boas práticas de gestão e sistemas tecnológicos que permitam aos nossos gerentes a concessão do crédito com qualidade e respeito às condições do cliente. Para tanto, realizamos pesados investimentos em tecnologia, algo em torno de R$ 200 milhões/ano, e em treinamento, aproximadamente R$ 65 milhões somente no último ano, para aperfeiçoar nossas práticas. A ampliação de nossa carteira de crédito obviamente gera um efeito denominador em nossa inadimplência, contudo, não explica completamente a permanente redução da inadimplência em nossas linhas de negócio desde 2005. Acredito que a melhora na qualidade de nossa carteira, com mais de 77% com rating AA-B, aliada à redução da inadimplência - que em 2009 atingiu os níveis mais baixos de nossa história - são provas inequívocas do bom trabalho que vem sendo realizado com reconhecimento dos órgãos de controle.

Credit Performance - Quais os planos da CEF para as micro e pequenas empresas, que ainda têm dificuldade de acesso ao crédito?

Maria Fernanda - A Caixa tem como meta crescer neste segmento algo em torno de 30%. Temos buscado acompanhar as inovações do mercado no que tange à constituição de mecanismos para inclusão de micro e pequenas empresas com dificuldades de acesso ao crédito, um deles as Sociedades Garantidoras de Crédito. Atualmente participamos do programa do governo federal "Microempreendedor Individual", que busca criar condições favoráveis para a formalização do pequeno empreendedor informal e, neste sentido, constituímos pacotes de produtos específicos, tendo como um importante canal de distribuição os contadores e correspondentes bancários. Ainda no âmbito do governo federal, a Caixa aderiu ao Fundo Garantidor de Operações, que permite a redução das taxas de juros para as pequenas empresas. Além disso, temos buscado firmar parcerias com associações comerciais e entidades setoriais para estabelecer formas adequadas para superar as restrições de acesso ao crédito.

Credit Performance - Como a CEF tem lidado com a falta de garantias desse setor para obtenção de crédito? Algum instrumento especial?

Maria Fernanda - De modo geral, nossos sistemas de avaliação de risco (credit e behavior score) e a busca de estreito relacionamento com o cliente (principalmente micro e pequenas empresas), apoiada por uma estrutura de governança em permanente aperfeiçoamento, têm sido as formas de manter os bons níveis de qualidade de nossa carteira de crédito.

Credit Performance - Há bancos que liberam créditos para empreendedores sem a necessidade de um fiador ou comprovação de bens, apenas a partir da avaliação do perfil do correntista. Como a Caixa avalia essa situação e qual é a política da instituição para promover o desenvolvimento dos empreendedores que têm bons planos de negócios, mas não dispõem de capital ou bens?

Maria Fernanda - A utilização de sistemas de análise de crédito baseada no comportamento do cliente (behavior score) e em seus parâmetros (credit score) tem sido uma regra no sistema bancário brasileiro e a Caixa adota as melhores práticas do mercado para garantir uma política de crédito responsável. Temos linhas de crédito que não exigem a comprovação dos bens, nem garantias formais, por exemplo, o microcrédito da Caixa, operado por meio da parceria com instituições de microfinanças e Prefeituras. A operação se realiza com base na avaliação do plano de negócio do empreendedor e em seu histórico. Formas alternativas de garantias são estruturadas como aval solidário ou alienação do bem a ser adquirido.

Credit Performance - Há programas para ajudar os pequenos negócios que queiram ingressar no comércio exterior?

Maria Fernanda - Sim, O PROGER Exportação é uma linha de crédito cujo objetivo é financiar capital de giro a micro e pequenas empresas exportadoras. Os recursos utilizados no PROGER provêm do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e destinam-se a empresas legalmente estabelecidas e com faturamento anual de até R$ 5.000.000,00, cooperativas e associações de produção.

Credit Performance - E as classes A e B, como ficam nesse contexto de sistema de crédito?

Maria Fernanda - A Caixa tem uma política de praticar as menores taxas e os melhores serviços para todas e todos os brasileiros.


DESTAQUES PARA LEGENDAS:
"Nossa meta é fechar 2010 com um total de aproximadamente 10 milhões de contas simplificadas, consolidando a Caixa como referência na inclusão bancária".


"Acredito que a melhora na qualidade de nossa carteira de crédito, com mais de 77% com rating AA-B, aliada à redução da inadimplência - que em 2009 atingiu os níveis mais baixos de nossa história - são provas inequívocas do bom trabalho que vem sendo realizado com reconhecimento dos órgãos de controle."

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