Quinta 29 Julho 2010
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ANÁLISE SETORIAL

Os principais motores da economia

Especialistas preveem que oferta de crédito deve continuar em evolução em 2010, graças à expectativa de crescimento da economia Fabio Barros

Crise? Que crise? Do ponto de vista da oferta de crédito, o mercado brasileiro passou ao largo da crise do ano passado. Um exemplo: de acordo com o Banco Central (BC), as operações de crédito do sistema financeiro cresceram, em dezembro de 2009, 14,9% em relação ao mesmo período de 2008, puxadas fundamentalmente pelas operações de pessoas jurídicas. Com este desempenho, estas operações passaram a representar 45% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, contra 39,7% do ano anterior.

O bom desempenho não ocorreu sem razão. De acordo com Tereza Maria Fernandez Dias da Silva, diretora da MB Associados, a oferta de crédito depende basicamente de duas coisas: emprego e renda. "O Brasil vem conseguindo manter as duas coisas. O crescimento na oferta de emprego e o aumento do salário mínimo acima da inflação deram tranquilidade para que as instituições dessem crédito para as pessoas", explica.

A este crescimento deve se somar os incentivos dados pelo governo aos setores automotivo, de materiais de construção e eletrodomésticos (linha branca), que estimularam o crédito e ainda reverteram tendências de queda em alguns setores, como o automotivo. A eficácia da medida também se traduz em números. Segundo o BC, a inadimplência de pessoas físicas caiu de 8,1% em novembro de 2009 para 7,8% em dezembro. Por setor, a menor taxa foi registrada justamente na modalidade de empréstimo para aquisição de veículos: 4,4%.

O setor imobiliário também sentiu, positivamente, os impactos das medidas do governo. Dados divulgados pelo BC e pelos agentes do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), responsáveis pelas operações com recursos das cadernetas de poupança, o saldo dos empréstimos habitacionais a pessoas físicas e cooperativas, incluindo o FGTS, chegou a R$ 88,9 bilhões, ou 40,6% mais que as demais linhas de crédito pessoal. O balanço do SBPE mostra que o volume de contratações cresceu 13,3% sobre 2008, chegando a R$ 34 bilhões.

O crescimento trouxe impactos indiretos. No vácuo do boom imobiliário, as redes do segmento de móveis e decoração, que somente em São Paulo movimentam cerca de R$ 7 bilhões ao ano, preveem para este ano um crescimento em vendas que pode bater na casa de 40%. A estratégia está pronta, e deve focar a abertura de lojas em regiões onde há previsão de entrega dos imóveis vendidos nos últimos dois anos.

A ação do governo incluiu também os bancos públicos que, durante a crise, foram engajados na estratégia de estímulo ao crescimento. Como resultado, em novembro de 2009, o volume de crédito dos bancos públicos representava 18,4% do PIB, contra 13,8% em 2008. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, bateu em 2009 seu recorde na oferta de crédito, chegando a R$ 125 bilhões para empresas e pessoas físicas. Deste total, R$ 46,9 bilhões foram operações de crédito para habitação, o que representou um crescimento de 100% em relação a 2008.

2010
Se o balanço do setor de crédito em 2009 é positivo, as perspectivas para 2010 são ainda melhores. "Tudo leva a crer que devemos manter a expansão porque estamos em um momento de crescimento da economia, principalmente na indústria", diz Tereza Maria. Mas não só. A executiva destaca a previsão de crescimento de renda em 4,5% acima da inflação, número que ela avalia como bastante forte. "A inflação não deve ter um aumento dramático, o que faz prever que o crédito deve continuar crescendo."

Entre os segmentos que devem continuar alavancando o crescimento do crédito, Tereza Maria aponta a construção civil, que deve avançar com um ritmo de expansão acima da média, e também o setor de alimentos.

O otimismo é compartilhado pelo mercado, que apresenta um cenário favorável para que se repitam os recordes de financiamento de 2009, quando foram contratadas 686 mil operações, contra 627 mil do recorde anterior, de 1980. Por conta disso, o SBPE projeta um crescimento de 50% nos empréstimos, bem mais que a previsão de aumento de 10% na captação da poupança.

Tereza Maria afirma que o mercado vive um momento de continuidade de um processo positivo iniciado em 2009, e para o qual muitos setores já estão minimamente preparados. Um exemplo é o processo de consolidação do setor de varejo, que está provocando novas entradas. "Temos novos investidores chegando e o movimento do Pão de Açúcar como exemplos de que o setor vive um momento muito interessante. De outro lado, o varejo online vem crescendo em volume e em novos modelos, como a criação de clubes de vendas na internet", reforça.

Processo semelhante vive o setor petroquímico. A especialista garante que estas mudanças não ocorrem por acaso. Ao contrário, mostram que o mercado está passando por mudanças e se adequando a novas condições criadas pelo foco maior no mercado interno. "Isso ocorre justamente porque o poder aquisitivo da população está crescendo, eles podem demandar mais. Tudo isso, de alguma maneira, é consequência da expansão do crédito", diz.

Toda esta movimentação deve trazer um novo cenário para o mercado, que deve ver um crescimento ainda maior do crédito às pessoas jurídicas. Algumas previsões dão conta de que o crédito para as empresas poderá crescer 25% em 2010, contra 20% no crédito às pessoas físicas.

Efeitos da expansão
O que a expansão de crédito trouxe ao setor automobilístico

- 3,22 milhões de carros produzidos em 2009, com previsão de 3,39 milhões em 2010
- faturamento de R$ 146 bilhões em 2009
- o setor fecha ano representando quase 6% do PIB nacional e 23,3% do PIB da indústria
Fonte: Anfavea

NÚMERO
310 mil imóveis foram financiados em 2009 com recursos da poupança
Fonte: Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança)


Pessoa física x pessoa jurídica
Operações de crédito envolvendo os dois públicos (2009)
Saldo Crescimento
Pessoa jurídica R$ 396 bilhões 1,1%
Pessoa física R$ 319,8 bilhões 17,4%
Fonte: Banco Central


Quanto cresceu a oferta de crédito para pessoa física:

Setor Crescimento Saldo
financiamento imobiliário 40,6% R$ 88,9 bilhões
financiamento de veículos 12,9% R$ 157,1 bilhões
empréstimo consignado 34,6% R$ 106,1 bilhões
Fonte: Banco Central

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