Quinta 09 Setembro 2010
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EDUCAÇÃO FINANCEIRA - CAPA

Mais consciência na hora de gastar

Educação financeira não é mais um paradoxo que nubla o “céu aberto de possibilidades” do setor de crédito e cobrança no Brasil. Ao contrário, o conceito, incorporado inclusive por agentes financeiros, está dando origem a práticas de benchmark que alicerçam o desenvolvimento sustentável do setor e do País. Conheça a seguir iniciativas criativas que estão disseminando o uso equilibrado do dinheiro e o consumo consciente entre os mais diversos públicos, de crianças a “superendividados”. Por Christiane Marcondes Alves de Brito

Sábado, 10h15, a apresentadora Denise Chahestian dá as boas-vindas aos espectadores da TV Cultura paulista e passa a falar sobre “educação financeira”. Longe de ser maçante, o programa, que vem interessando públicos de todos os tipos, é uma coprodução da BMF&Bovespa. Domingo, numa escola da periferia na zona sul de São Paulo, pais, professores e líderes locais participam de workshop de educação financeira e uso responsável do dinheiro. Dinâmicos, os encontros fazem parte do programa “Sonhos Reais”, promovido pela Serasa Experian (ver reportagem na pág. XX). Iniciativas como essas contribuem para derrubar a máxima de que agente financeiro só se preocupa com lucros. Elas deixam claro que o agente financeiro sabe que só existe lucro verdadeiro quando a operação de crédito e investimento tem sustentabilidade; do contrário, o emprego de dinheiro em desenvolvimento pessoal ou empresarial não constituirá solução, mas apenas um castelo de cartas pronto a desmoronar com o primeiro sopro de dificuldades.  Denise confessa que não entendia muito de economia doméstica quando começou a ancorar seus programas com 12 minutos de duração. Agora “ficou esperta” e procura levar para a vida pessoal os ensinamentos que transmite em rede nacional.  Orçamento familiar, endividamento, investimento em ações, poupança e até a compra da casa própria são alguns dos temas que já abordou, sempre de forma simples e didática. E sempre com a consultoria da BMF&Bovespa, patrocinadora de um extenso programa de educação financeira, que inclui várias outras ações além da co-produção do programa, que entrou na grade da emissora no segundo semestre de 2009 e deve ter vida longa, a julgar pela visibilidade já alcançada.    Turma da Mônica contra os superendividadosEm março último, a Mauricio de Sousa Produções e a Universidade Metodista de São Paulo lançaram o gibi “Superendividados”, com a Turma da Mônica. Em 20 páginas, a divertida aventura ensina as crianças a lidarem com dinheiro. A publicação, que comemorou os 20 anos do Código de Defesa do Consumidor, completados agora em 2010, teve uma tiragem de 100 mil exemplares para distribuição gratuita em palestras de orientação sobre o superendividamento e também em escolas, associações de bairros e comunidades carentes. Na história, Magali vai ao supermercado com seu pai e enche o carrinho com as gulodices que adora. Na hora do acerto de conta, os cartões do pai não passam pelo caixa, porque estão com os limites estourados, e ele percebe, desesperado, que está endividado. Ao longo das páginas seguintes, o suspense que encanta os minileitores de Mauricio de Sousa traz as reviravoltas de sempre e também diversas dicas sobre como lidar com a falta de dinheiro e como economizar, para que as crianças cresçam conscientes e ajam responsavelmente na hora de fazer compras. O Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Rizzatto Nunes, e a ex-diretora executiva do PROCON-SP, Marli Aparecida Sampaio, desenvolveram o projeto, batizado de “Educação para o Consumo”, e cederam gratuitamente os direitos autorais da parte que lhes coube abordar: o superendividamento, desenvolvido com exclusividade para a revista especial da Turma da Mônica.A Universidade Metodista de São Paulo, em parceria com a Editora Atlas, Papéis Nova Mercante, Gráfica RR Donnelley Moore e Associação Civil SOS Consumidor “acreditaram no projeto e o tornaram realidade”, conta Mauricio de Sousa. Dinheiro não é brincadeiraPara o gestor do programa “Sonhos Reais” da Serasa Experian, Tomás Carmona, saber dizer “não” às crianças é uma das principais “vacinas” contra a inadimplência que atinge os consumidores. Normalmente, os pequenos recebem tudo o que pedem ou se sentem “desvalorizadas” num universo em que “comprar é preciso”: comprar tênis de marca, os produtos da moda, os games que todos os colegas comentam.A educação financeira não quer ser um fator que atrapalhe a inclusão do menor no seu universo de convívio, mas procura mostrar os limites entre o que é possível e o que não é possível comprar. Em última instância, pode demonstrar que o valor de uma pessoa não reside nas suas “posses”, mas no que essa pessoa pode e deve se tornar. “Esta compreensão passa pelo entendimento de como funciona o sistema financeiro, por exemplo, é importante saber a diferença entre parcelas de baixo valor e juros altos. As pessoas se apegam ao valor da parcela e não enxergam os juros embutidos”, explica Carmona.

Sonhos Reais A importância de viver sonhos possíveisA Serasa Experian também já se engajou na educação financeira do seu público, criando o “Sonhos Reais”. O nome é mais do que apropriado para um projeto que, segundo o seu gestor, Tomás Carmona, leva a professores e pais da rede pública de ensino ferramentas para lidar adequada e proveitosamente com “dinheiro”. O programa piloto foi implantado, em 2009, em escolas carentes da zona sul paulistana e atualmente passa por processos de avaliação para levantamento de resultados. A julgar pelos dados empíricos, o plano implantado foi um sucesso e terá continuidade no segundo semestre de 2010.“Criamos um programa interno de formação de voluntários em educação financeira com o objetivo de levar à população o tema de uma forma empática, simples, de rápida assimilação. A metodologia é importada e adaptada às necessidades das seis escolas da Regional Sul da Secretaria Estadual onde implantamos o programa. Levamos conhecimento aos pais, professores e líderes de comunidade carente por meio de nosso grupo de voluntários, na verdade colaboradores que de livre e espontânea vontade se submeteram ao curso de capacitação – de 80 horas – que realizamos no primeiro semestre de 2009”, diz Carmona.“Sonhos Reais” consiste em cinco workshops semanais, sempre aos domingos, somando 20 horas de trabalho. A metodologia, inédita no Brasil, é da Micro Finances Oportunities, organização norte-americana que adaptou a ferramenta à realidade brasileira com patrocínio do Citibank.  Os macrotemas do workshop são orçamento e poupança, gerenciamento de dívidas, serviços bancários e negociações financeiras, família e dinheiro, educação financeira na escola. “O interessante da educação financeira é que ela já começa aos quatro meses de idade, quando a criança passa a se confrontar com o aprendizado da ‘espera’; afinal, educação financeira nada mais é do que aprender a esperar, esperar para ter dinheiro e poder comprar o objeto do desejo, esperar para ver as moedas aumentarem no cofrinho e somar um valor que proporcione a compra de algo desejado”, ensina Carmona.O programa acabou incorporando material que a Serasa já utilizava – antes da associação à Experian – para disseminar o conceito de consumo consciente, como gibis e até manual do professor. Segundo Carmona, certamente é mais fácil ensinar crianças a lidar com dinheiro porque é muito mais fácil “criar hábitos saudáveis do que modificar hábitos equivocados”. Muito além de um programa de TVGrande parte da nossa vida é feita de escolhas que envolvem dinheiro. Se não tivermos disciplina, corremos o risco de pagar caro por uma vida financeira desorganizada. A educação financeira é importante para ensinar as pessoas sobre quais informações elas devem avaliar ao tomar decisões de consumo e poupança, ensina Patricia Quadros, da BMF&Bovespa, entidade que patrocina o programa “Educação Financeira”, da TV Cultura. Credit Performance – Como fazer do crédito um investimento?Patricia Quadros – Em nossos programas de educação financeira, defendemos o uso do crédito de forma responsável. Mostramos que ele é importante para a economia, mas alertamos quanto ao seu uso dentro das reais possibilidades financeiras de cada um. Incentivamos nossos alunos a pesquisar e optar por instituições que ofereçam os melhores custos financeiros.  Mostramos ainda que, em determinados casos, o endividamento pode ser positivo. São os casos em que o crédito é usado para formação de patrimônio, como na aquisição da casa própria, por exemplo. Credit Performance – O que evitar para que o crédito não se torne dívida?Patricia Quadros – A melhor maneira de lidar com as finanças é por meio de um orçamento pessoal. Ao colocar as receitas e despesas no papel é possível ter uma visão geral da situação financeira. Podemos visualizar para onde vai o dinheiro, checar se o nosso gasto é compatível ao nosso ganho e verificar onde é possível reduzir despesas com mais facilidade. No entanto, para evitar que o crédito se torne um endividamento fora de controle, além de fazer o orçamento, é preciso ter disciplina. Credit Performance – Como os adultos, com atitudes viciadas, correspondem a propostas de redução financeira? O programa de TV é muito procurado nesse sentido?Patricia Quadros – A educação financeira é um assunto que tem alcançado cada vez mais destaque. Muitas pessoas que procuram por nossos programas de educação financeira, incluindo o programa de televisão, estão em busca de soluções para uma situação de endividamento. Outras, por exemplo, estão preocupadas com o futuro ou em busca de um sonho. Em geral, percebemos que todas elas querem aprender a organizar o próprio orçamento para começar uma poupança. Embora os conceitos de controle de orçamento pessoal e de formação de poupança sejam relativamente simples, na prática, não é tão fácil ter disciplina para conter os próprios gastos. As pessoas estão em busca desse tipo de orientação e encontram suporte quando acessam nossos cursos presenciais e on-line. Credit Performance –  Quais são os seus parceiros no programa e que tipo de educação eles proporcionam aos seus clientes?Patricia Quadros – A BM&FBOVESPA sempre teve um compromisso com a educação. O lançamento do programa de TV, em 2009, foi mais um passo para levar informações sobre educação financeira a um maior número de pessoas. Mas é importante destacar que realizamos esse trabalho já há muitos anos. Em 2002, iniciamos o Programa de Popularização e ampliamos as nossas iniciativas de educação financeira buscando fomentar a cultura de investimentos. Em 2006, começamos a ministrar cursos e palestras gratuitos sobre o assunto com o lançamento do Educar. Ainda nesse ano, lançamos a competição interescolar Desafio BM&FBOVESPA, que já está em sua quinta edição e agora chega a todo território nacional em versão Web. Em 2007, fomos convidados a fazer parte de um grupo de trabalho liderado por entidades do governo – dentre elas, o Banco central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e ficamos responsáveis por desenvolver um plano de iniciativas para implementar a educação financeira na grade curricular das escolas brasileiras. O primeiro resultado desse trabalho está prestes a sair. Em 2010, o projeto piloto será aplicado em 650 escolas. No programa de televisão Educação Financeira somos os responsáveis pelo conteúdo e contamos com a colaboração de consultores especialistas em economia e finanças. Essa colaboração nos permite falar sobre os mais diversos assuntos e produtos financeiros. Credit Performance – Qual é a principal atitude para aprender a economizar? Patricia Quadros – Na verdade, são duas: definir objetivos e ter disciplina. Quando não temos um objetivo claro fica mais difícil poupar. Nossa tendência natural é ceder aos nossos desejos, viver o agora e deixar para resolver o futuro quando ele chegar. Porém, essa atitude muda quando sabemos que o sacrifício de adiar o consumo hoje tem uma causa maior: um sonho a ser alcançado.  Credit Performance – Como poupar quando se ganha o bastante para bancar as despesas mensais?Patricia Quadros – Por mais difícil que possa parecer, quando uma pessoa se predispõe a poupar, tudo o que ela precisa fazer é organizar o orçamento e começar.  Se pararmos para analisar, vamos perceber que o dinheiro está em muitos momentos do nosso dia a dia. E é nesses momentos, que estão as oportunidades de começarmos uma poupança. Pode ser bem pouco no início, até mesmo centavos. O mais importante é cultivar o hábito. É preciso absorver a idéia de que uma pessoa com acesso à educação financeira pode, inclusive, mudar sua própria condição social. Credit Performance – Como organizar um orçamento pessoal?Patricia Quadros – No site do programa Educação Financeira é possível baixar um modelo de planilha que pode ser usada para organizar um orçamento pessoal. Essa planilha pode ser customizada de acordo com a necessidade de qualquer pessoa, de qualquer perfil. Mas a planilha não é o único meio. Um caderno já dá conta do recado. O mais importante é assumir um compromisso consigo mesmo e anotar tudo o que é gasto. Tudo mesmo. Pequenas despesas podem se transformar em grandes gastos. Ou em grandes economias, o que é melhor ainda. Dicas para alcançar sustentabilidade financeiraPor Marli Aparecida Sampaio* 1) Compare seus compromissos financeiros a seus vencimentos ·        No início de cada mês, antes de receber seu pagamento, faça uma soma dos seus compromissos financeiros. Compare a soma desses valores com os valores que você tem a receber. ·        No início de cada ano faça uma soma dos compromissos financeiros que você já assumiu e que deverá pagar. Compare a soma desses valores com os valores que você já sabe que irá receber durante o ano. 2) Conheça suas reais necessidades ·        Antes de fazer qualquer compra, ou aquisição, verifique se o que está comprando é algo de que realmente necessita, ou se é algo que está comprando por impulso. ·        Antes de fazer grandes dívidas, ou longas prestações, ouça a opinião de pessoas de sua família que moram com você e que colaboram financeiramente com as despesas. ·        Quando for fazer compras de supermercado faça uma lista, anote o preço médio dos itens anotados, assim você já irá ao supermercado ciente do quanto poderá gastar. ·        Não se esqueça de se alimentar antes de ir ao supermercado. Isso ajuda a economizar com os supérfluos. 3) Cuidado com o crédito fácil ·        Se você já tem um empréstimo consignado (aquele que desconta em folha de pagamento), evite utilizar o cheque especial. ·        Evite pegar empréstimos nos terminais de caixas eletrônicos. Esses valores são divididos em parcelas pequenas, que, em princípio, cabem em seu orçamento, mas o problema é que após esse empréstimo virá a oferta de outro, depois outro, mais outro e quando você perceber seu salário já estará retido, na totalidade, para pagar essas parcelas.  ·        Se você já estiver nesta situação, procure o banco, proponha um reparcelamento dessas dívidas. Se não conseguir, procure outro banco que tenha juros e encargos menores. Lá você vai propor ao gerente a “Portabilidade de Crédito”, que é a possibilidade de o devedor movimentar o empréstimo de uma instituição para outra em busca de juros menores, conforme Resolução 3.401/06 do Banco Central do Brasil.  ·        Utilize cartão de crédito e cheque especial com racionalidade.  Ou seja, somente gaste no cartão de crédito e no cheque especial o que você vai conseguir pagar quando vier a fatura. ·        Evite pagar as compras com cheque especial, pague sempre a vista.  4) Não deixe suas dívidas crescerem ·        Quando perceber que não conseguirá pagar prestações de suas dívidas, procure o credor, faça uma proposta de reparcelamento, com parcelas menores. Antecipe-se ao credor. Isso lhe garante vantagens, tais como: pagamento de juros de mora, multas e outros encargos. ·        Nunca pague o valor mínimo de sua fatura de cartão de crédito. Se não conseguir pagar o valor total da fatura, pague ao menos o dobro do valor mínimo. ·        Se perceber que está difícil pagar a fatura do cartão de crédito, tire o cartão do bolso. Procure o gerente de seu banco e faça um empréstimo para pagar o cartão. Os juros são bem menores. ·        Se fizer um parcelamento de dívidas, nunca atrase as parcelas. 5) Priorize o pagamento de gastos fixos ·        Por exemplo, o valor do aluguel, das despesas de condomínio, da mensalidade escolar, da prestação da casa própria, do plano de saúde, de um empréstimo descontado em folha ou pago com carnê, os parcelamentos de dívidas, as prestações em geral. 6) Tome atitudes efetivas quando estiver no vermelho  ·        Converse com sua família sobre suas dificuldades financeiras. A conversa não serve apenas para deixá-los cientes das dívidas, mas para que todos o ajudem a economizar e a sair do vermelho. ·        Faça sua família se unir a você para que juntos, diminuam os gastos flexíveis (Gastos flexíveis também são fixos, mas podem variar de valor. Por exemplo, as contas com água, energia elétrica, gás e telefone, as despesas com feiras e supermercados, com vestuário etc.). ·        Troque o plano do telefone fixo e celular, diminua o pacote da TV por assinatura,  procure um supermercado com preços mais em conta. ·        Todos esses gastos são os flexíveis. ·        Reduza os gastos supérfluos. Compras de coisas que você pode deixar para uma época de menos aperto financeiro. ·        Inclua no seu orçamento (anual e mensal) os gastos esporádicos, caso do licenciamento do carro, compra de material escolar, festinha da escola dos filhos, festa de aniversários, presentes, etc.  *Marli Aparecida Sampaio é co-autora da cartilha “Superendividados”, ex-diretora executiva do PROCON-SP e professora da Universidade Metodista de São Paulo.
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