Quinta 29 Julho 2010
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Líderes da Industria

Entrevista Pingue - Pongue - Jose Renato Borges

O Brasil merece crédito
Em 1996, quando o Plano Real vivia um de seus melhores momentos e o consumidor brasileiro finalmente começou a conviver com níveis inflacionários civilizados, os fabricantes de eletrodomésticos aumentaram significativamente a produção de suas fábricas para dar conta da demanda e quase foram à bancarrota. Não levaram em consideração que dificilmente uma família compra mais de uma geladeira e um fogão e não enxergaram o limite de compra dos consumidores, por mais reprimida que fosse essa necessidade. Várias cadeias de varejo faliram. Além do limite de compra de cada família, houve uma grave crise de inadimplência. Nem consumidores, nem varejistas, nem indústrias estavam acostumados a conceder crédito num ambiente econômico minimamente estável.

Treze anos e mais uma série de crises financeiras internacionais e internas depois, a oferta de crédito no Brasil alcançou em julho último o equivalente a 45% do Produto Interno Bruto (PIB) — a melhor marca em quase 40 anos. José Renato Simão Borges, vice-presidente do Banco Sofisa e presidente da Comissão de Crédito e Cobrança da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), analisa a evolução do mercado de crédito no País e estima que, com a adoção do cadastro positivo (banco de dados com informações de crédito de bons pagadores), haverá uma expansão de 30% nos processos de aprovação de empréstimo.

Credit Performance — Os consumidores e as empresas brasileiros já aprenderam a obter e a conceder crédito?

José Renato Simão Borges — Depois de um longo período inflacionário, em que o crédito se restringia ao curto prazo, atingimos a estabilidade e, com ela, a possibilidade de evoluirmos com as políticas de risco, base de dados, comportamento dos tomadores, ferramentas e modelos de crédito. Nos últimos oito anos, dobramos a participação do crédito no PIB. Mas ainda temos muito a evoluir.

Credit Performance — Levantamentos mostram uma alta na inadimplência de pessoas jurídicas no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2008. Em que medida a crise financeira internacional ainda afeta o crédito no Brasil?

Borges — A crise comprometeu a liquidez e os padrões de crédito. Por mais que os volumes tenham voltado aos patamares pré-crise, ainda estão concentrados em grandes empresas que trocaram o mercado internacional pelo interno. As pequenas e médias tiveram que comprometer seu faturamento e suas garantias com a crise. Agora, com a retomada do crescimento e da confiança dos agentes econômicos, o crédito deve se normalizar e os indicadores de inadimplência, melhorar, em especial no último trimestre.

Credit Performance — Quais as consequências para o crédito da sobrevalorização do real perante o dólar?

Borges — Ela traz impacto principalmente para as empresas que atuam no comércio internacional ou possuem endividamento externo. A liquidez internacional deverá facilitar a retomada do acesso a recursos externos, bem como auxiliar as importações para a atualização de nosso parque industrial.

Credit Performance — O governo federal pôs os bancos estatais para irrigar os financiamentos tanto a empresas quanto a pessoas físicas. A medida foi acertada?
Borges — Sim, mas a sustentabilidade se dará apenas com a confiança de todos os agentes de crédito, pois desenvolvimento e crescimento econômico só acontecem com adequada oferta de crédito, em especial com estruturas apropriadas de fomento e com um forte sistema financeiro. A concentração bancária deve ser resolvida pelo mercado altamente competitivo.

Credit Performance — O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, já diminuiu a Selic de 13,75% para 8,75% neste ano. Ainda há espaço para a redução da taxa básica de juros?

Borges — Considerando a taxa de juros real, sim, mas temos um cenário externo com algumas indefinições que devem prejudicar essa tendência. De qualquer forma, temos o menor patamar de juros nominais e reais dos últimos tempos.

Credit Performance — De acordo com a consultoria e-bit, o comércio eletrônico brasileiro faturou R$ 4,8 bilhões no primeiro semestre, 27% mais que em igual período de 2008. Segundo o Instituto Ibope Nielsen Online, o Brasil já tem quase 65 milhões de internautas. Estudo do Instituto Data Popular constatou que 75% das pessoas que se conectam à web no País são de baixa renda e que elas detêm 69% dos cartões de crédito e débito emitidos em território nacional. Por que, então, esse consumidor ainda é tão mal atendido?

Borges — Existe uma demanda reprimida que é potencializada pelo crescimento econômico e pelo aumento da renda. Como qualquer processo de expansão, a qualidade do serviço vai ser equalizada com o aumento da demanda. O comércio eletrônico cresceu bastante, porém ainda carece de ferramentas antifraude para dar segurança ao usuário. Trata-se de um mercado muito recente. A classe C, responsável por quase metade do consumo nacional, teve um acréscimo de mais de 20 milhões de pessoas nos últimos anos. São indivíduos que tiveram aumento de renda. Entretanto, isso é muito recente, assim como a decisão de comprar pela internet. À medida que houver histórico desse tipo de consumo, o acesso ao crédito vai melhorar.

Credit Performance — A rede de varejo Casas Bahia usa os motoristas dos caminhões que entregam mercadorias aos clientes para fazer a verificação das informações cadastrais dos fregueses que não têm comprovação de renda. É um método muito particular de avaliação de risco, mas parece que tem dado certo. Por que muitas empresas relutam em desenvolver critérios de concessão de crédito mais afinados com as condições econômicas brasileiras e optam por sistemas internacionais nem sempre adequados à nossa realidade?

Borges — Essa opção acaba sendo prejudicada pela falta de histórico de crédito e de comportamento do tomador de financiamento. O cadastro positivo — em fase de regulamentação no Congresso Nacional — propiciará a democratização da informação e a melhora desse cenário. Trará a experiência de quem pagou, com ou sem crédito, inclusive por meio de cartões, cuja base tem crescido de 25% a 30% ao ano. Em nossa opinião, o cadastro positivo vai ampliar 30% os processos de aprovação de crédito. Aquele cliente que era recusado porque não havia informações sobre sua vida financeira passará a ser aceito, se estiver incluído no cadastro positivo. O trabalho de confirmação cadastral continuará necessário até que tenhamos melhores ferramentas de crédito e de prevenção de riscos.

Credit Performance — A reforma tributária também poderia facilitar e baratear a concessão de crédito?

Borges — A experiência recente da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis e eletrodomésticos mostrou que, diminuindo tributos, vende-se mais. A carga tributária financia os custos do governo. O problema não está na reforma, e sim no uso do dinheiro arrecadado. A carga pode ser maior, desde que o governo ofereça serviços compatíveis, como ocorre em outros países. É indispensável haver melhor utilização dos recursos e simplificação dos tributos (como a nota fiscal eletrônica e o Simples). Dessa forma, mais gente virá para a economia formal. É improvável que tenhamos uma mudança profunda no sistema de impostos, pois não se consegue alterar radicalmente a estrutura de gastos do governo. A saída é apostar na determinação dos governantes em continuar trabalhando nesta responsabilidade.

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