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Brasil: A volta dos investimentos

Brasil: A volta dos investimentosMarço é a safra do Produto Interno Bruto, PIB – o mês em que os institutos de estatística mais avançados informam como foi a atividade econômica em seus países. A última safra tem sido boa: há expansão em praticamente todas as regiões. Considerando 52 nações que já divulgaram seus números e que formam 90% da produção mundial, o crescimento foi de 4,2% no quarto trimestre de 2004. O resultado é muito positivo, mas também indica desaceleração. No primeiro semestre, o ritmo de crescimento era de 5,2%, conforme dados compilados pela revista The Economist.

Por: Carlos Alberto Sardenberg, Revista Exame - 16/03/05
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O Brasil está em linha com o mundo, na tecnologia estatística e na atividade econômica. O IBGE soltou os números em 1o. de março, junto com os institutos dos países mais desenvolvidos. E o Brasil cresceu bem em 2004 – 5,2%, o melhor resultado desde 1994 - mas também desacelerando. Conforme dados dessazonalizados e anualizados, o PIB avançou apenas 1,7% no último trimestre, contra um ritmo bem mais forte de 7,3% registrado no começo do ano.

E daí, o que isso diz para 2005? A resposta não é simples. Se leva algum tempo para se saber o que aconteceu no passado, naturalmente é ainda mais difícil entender o que se passa no momento e um risco tentar antecipar o futuro. Mas a verdade é que os economistas desenvolveram ferramentas que permitem pelo menos alguns bons palpites.

Por exemplo: se houve investimentos em máquinas e equipamentos num determinado ano, é sinal de que os empresários se preparam para produzir mais no período seguinte. E um dos números mais importantes do ano passado, no Brasil, foi justamente a expansão dos investimentos (a Formação Bruta de Capital Fixo, no jargão estatístico), que alcançou 10,9%, a melhor taxa desde 1997.

A desagregação desse número manda um sinal melhor ainda. Trata-se de uma composição de gastos em construção civil (que cresceram 5,9%) e aquisição de máquinas e equipamentos, investimento que aumentou 19,3%, “resultado espantoso”, na definição do diretor de Planejamento do BNDES, Antonio Barros de Castro, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. Castro, economista de reconhecida competência nas questões de desenvolvimento industrial, diz que os empresários não estão montando fábricas novas, mas estão trocando suas máquinas, manobra que seria a adequada ao momento e que permite crescimento rápido para atender a uma nova demanda.

A nova fábrica viria num momento posterior, aposta o diretor do BNDES, para quem o atual crescimento é de boa qualidade e duradouro. Que a demanda aumentou em 2004, não há dúvida. O consumo das famílias, que representa quase 60% do PIB, cresceu 4,3%, puxado pela expansão do crédito à pessoa física (mais 22% nominais) e pelo aumento do número de empregados, o que elevou a massa salarial.

Dados mais recentes sugerem que esse ambiente se prolongou em 2005. Por exemplo, o emprego formal, conforme números do Ministério do Trabalho, cresceu (mais 116 mil postos) em janeiro, mês normalmente fraco. Isso responde a uma expectativa de que, neste ano, deve aumentar o consumo de não-duráveis (alimentos) e semiduráveis (roupas e calçados), enquanto 2004 foi o ano dos automóveis e dos eletroeletrônicos.
Uma pela outra, os empresários da indústria de transformação pretendem elevar em 8% a capacidade instalada de suas plantas, conforme a Sondagem Cultural da Fundação Getúlio Vargas.

Tudo isso se confirmando, 2005 será um ano de bom crescimento, embora abaixo de 2004 – de novo em linha com as expectativas para a economia mundial.

Mas há dúvidas também. Os investimentos tiveram forte desaceleração no final do ano passado. Na verdade, em termos dessazonalizados, a Formação de Capital caiu 3,9% no último trimestre, contra um pico de expansão de 6,8% no terceiro trimestre. O que teria acontecido?
Técnicos do IBGE e outros analistas dizem que pode ter sido um problema estatístico. É o seguinte: a Petrobrás acrescentou a seus ativos duas plataformas de exploração de petróleo, que normalmente deveriam ser somadas ao item de máquinas e equipamentos. Entretanto, em razão do esquema de financiamento, a Petrobrás montou operação contábil pela qual exportou as plataformas para uma empresa holandesa, que em seguida as alugou para a própria Petrobrás. Os equipamentos não deixaram o país, mas entraram nas contas do IBGE como exportação.

Se computados como investimento, melhorariam o resultado do último trimestre. Se não foi isso, a queda do último trimestre fica “sem explicação macroeconômica razoável”, conforme a consultoria Tendências.

Mas toda essa desaceleração no final do ano não poderia ser consequência das sucessivas altas de juros promovidas pelo Banco Central, com o propósito justamente de esfriar a economia e quebrar a resistência da inflação?

Pode ter sido, concordam muitos analistas, mas não no que se refere especificamente aos investimentos. Para investir o empresário pensa em prazo mais longo – e a expectativa é que os juros voltem a cair em algum momento do segundo semestre deste ano, antes do Natal.

O que remete o debate à política monetária. A questão é saber se o aperto do BC apenas desacelerou a economia para um ritmo moderado, depois da forte recuperação do ano passado, ou se derrubou o PIB de modo fatal. Os dados até aqui sugerem que desacelerou tanto que a ampla maioria dos analistas espera para este ano uma expansão do PIB entre 3,5% e 4%. E se for isso, o país terá emplacado dois anos seguidos de crescimento bom com inflação em queda. Não acontece isso desde 1994/95, quando do lançamento do Real.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Revista Exame, edição 838, data de capa 16 de março de 2005

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