Com a clara intenção de conhecer em primeira mão, a realidade da indústria de crédito e cobrança desse país, fui convidado, em outubro deste ano, a percorrê lo, visitando empresas de cobrança, agências e associações. Esta oportunidade será, sem dúvida, inesquecível devido ao momento histórico que a China vive hoje em todos os aspectos e pela
valiosa contribuição obtida através da vivência de sua cultura.
Ao final da década de 70, a China iniciou uma etapa de importantes reformas em seu sistema econômico. Anteriormente, o modelo baseava se em um planejamento centralizado orientado ao cumprimento de metas. O mercado era controlado pelo Banco do Povo da China, órgão que desempenhava quase que
exclusivamente as funções de Banco central e instituição financeira.
A reforma significou o fim do modelo de planejamento
centralizado e a necessidade de novos atores. Começava assim um processo de descentralização que promoveu importantes mudanças, dando lugar a
novas instituições e
serviços financeiros especializados em diversos setores. Tal processo trouxe consigo inevitáveis falhas no acompanhamento necessário ao desenvolvimento de fatores chave para garantir um crescimento saudável e sustentável, o que resultou um uma grande quantidade de empréstimos irrecuperáveis junto ao sistema bancário.
Segundo Wu Jinglian, um dos mais importantes economistas chineses, a economia da China possui uma base de crédito
muito frágil, resultado do modelo centralizado que causou: 1) Falta de definições quanto ao direito de propriedade, 2) Ausência de um sentido forte da proteção dos direitos, 3) Falta de garantias práticas nas transações de crédito, 4) Impunidade da inadimplência, e 5) Frágeis instituições de crédito e níveis de serviço ineficientes.
O serviço de crédito teve início nas instituições estatais e devido à grande demanda também entraram neste mercado as instituições privadas, seguidas pelas internacionais que vem se expandindo com certas
restrições. Considerando que mais de 60% da população é oriunda das zonas rurais, uma das primeiras e mais importantes instituições estatais, foi a Rede de Cooperativas de Poupança e Crédito da China fundada nos anos 50, que apoiou substancialmente a reforma rural, além de oferecer serviços financeiros aos agricultores, contando mais de 42 mil filiais, 2400 confederações distritais e 280 mil postos de serviço.
O Mercado de Crédito
O desafio da Informação
Durante o período de reforma, houve um
crescimento da concessão de
crédito a empresas e pessoas físicas, antes menos desenvolvido, com o intuito de estimular a demanda e o crescimento da economia.
Um dos maiores desafios era e continua sendo o do acesso à informação para a tomada de decisões. A Internet tornou se um canal muito importante para muitas empresas em Beijing. Desde 2001, o portal "
www.hd315.gov.cn", da Administração Municipal da Indústria e Comércio, permite verificar se uma empresa ou pessoa física possui restrições no "sistema de proteção ao crédito".
Shanghai foi a primeira cidade a implementar um sistema de crédito pessoal e em 1999 a primeira na qual se instalou uma empresa de avaliação de crédito. Os nomes de seus habitantes eram incorporados ao "
sistema individual de serviço de informação ao crédito" quando estes solicitavam um empréstimo à rede bancária. Os bancos, empresas e outras instituições podiam acessar estes dados, a fim de conhecer os antecedentes de crédito de cada um, e tomar decisões em questão de segundos graças à Internet, procedimento este que antes levava semanas.
O Crédito pessoal
Em 1998, começaram a ser oferecidos empréstimos pessoais para a compra de automóveis, e desde então este serviço encontra se disponível em mais de 10 bancos de Shanghai. A partir desta época, a metade dos automóveis particulares foram adquiridos através de
financiamento.
A General Motors, segundo fabricante estrangeiro de automóveis na China, depois da alemã Volkswagen, foi a primeiro a encaminhar ao governo uma solicitação para oferecer linhas de crédito. Em meados de 2004, Christian Weidemann, diretor da financiadora GM na China, afirmava que verificar o histórico de crédito dos clientes
...era como bancar o detetive privado em um país desprovido de base de dados de crédito centralizada.... Além disso, é importante considerar que o salário médio nas regiões urbanas é de aproximadamente 834 por ano e que as taxas de juros do governo são fixadas em no mínimo
5%, o que significa que as financiadoras não podem praticar taxas inferiores às dos bancos, como o incentivo
taxa 0% de financiamento. Isto ocorre devido ao fato do governo chinês poder impor
limites às transações das financiadoras.
No fim do ano 2000, os dois principais cartões de crédito chineses, o cartão Grande Muralha emitido pelo Banco da China com 2 milhões de usuários e o cartão Pacífico, emitido pelo Banco de Comunicações da China, anunciaram que uniriam forças e trabalhariam juntos. Estes números demonstram como, nesta época, o crédito pessoal era praticamente inexistente, considerando que em um país de
mais de 1,3 bilhão de habitantes, havia apenas 2 milhões de cartões de crédito, o que equivaleria a 75.000 cartões em circulação na Espanha, o que está muito longe de representar a realidade, pois contando os cartões de crédito e de débito o total de cartões no mercado espanhol chegava a 40 milhões em 1997 e nesta data a rede Corte Inglês possuía 3 milhões de cartões próprios.
Os Empréstimos irrecuperáveis O grande número de empréstimos irrecuperáveis dos bancos estatais, não se deve apenas à
falta de controle, vai além, tendo origem em problemas
estruturais e
históricos de funcionamento da economia chinesa. Entre eles, a pouca autonomia das instituições financeiras e os critérios políticos e não econômicos na concessão de empréstimos a empresas.
Os mais de U$S 500 bilhões de
empréstimos incobráveis correspondem aos quatro bancos mais importantes e representam 50% da carteira total de incobráveis do mercado. A fim de dimensionar o impacto destes números é importante saber que a média internacional considerada crítica é de 10% de incobráveis, sendo que na China este indicador superava 25% em 2001.
Ainda assim, este indicador reflete uma queda, visto que
em 1999 era de 39%, em 2000 de
28,8% e em 2001 de
25,37%. O governo definiu como objetivo reduzi lo a
15% antes do final de 2005, o que vem ocorrendo graças a um percentual de juros inferior a
1% para novos empréstimos, nos últimos anos.
Isto se deve seguramente a uma
melhora na análise e exigências para a concessão de empréstimos, através de
sistemas informatizados de controle e monitoramento, à deshabilitação de funcionários e ao descredenciamento de instituições financeiras com atividades não regulamentadas ou ilícitas e ao fortalecimento da supervisão e do controle por parte do Banco Central.
O Futuro
Considerando a relação existente entre o desenvolvimento do sistema financeiro e a evolução econômica do país, é imprescindível aprofundar a
reforma financeira com o objetivo de resolver os desafios que ainda existem.
Para que o sistema financeiro possa acompanhar os novos desafios que a economia apresenta, os bancos empresariais estatais terão que encontrar uma solução à sua importante carteira de empréstimos
irrecuperáveis e avançar em direção a uma fórmula realmente competitiva através de uma forte transformação. Além dos problemas atuais e dos temas financeiros que ainda darão trabalho, as conquistas alcançadas e o potencial do país, fazem com que alguns analistas prevejam que a China dominará o mercado financeiro da região.
Hong Kong Credit & Collection Management Association (HKCCMA)
O crédito colaborou mil vezes mais para enriquecer a humanidade do que todas as minas de ouro do mundo. Exaltou o trabalho, estimulou a fabricação e levou o comércio para os mares. Com esta famosa frase de Daniel Webster, a
HKCCMA nos mostra para que fins foi criada.
A
Hong Kong Credit & Collection Management Association (HKCCMA) foi oficialmente fundada em dezembro de 1999 e sua missão desde então consiste no esforço de preservação de um ambiente de crédito saudável na sociedade através da regulamentação, da
manutenção e do desenvolvimento de padrões éticos elevados, profissionalismo e práticas dentro da indústria e entre seus profissionais.
Atualmente, muitas das empresas dedicadas ao sistema industrial da China, mantêm vínculos e associam se à HKCCMA, pois ainda não existe associação voltada a esta problemática, a nível
nacional, o que no momento leva importantes representantes a se filiar à associação de Hong Kong e assim construir a evolução de um mercado
incipiente e jovem, mas resultado de um país e
cultura milenares.
O atual presidente da associação e de seu comitê executivo é Benedict Wong que tive a oportunidade de conhecer e com quem troquei idéias durante minha visita a seu escritório no centro de Hong Kong, em outubro deste ano. Wong acredita que a situação do crédito na China encontra se em fase
embrionária, dando fortes indícios de crescimento sustentável, tornando se cada vez mais importante e no futuro desempenhará um papel fundamental no ciclo da economia e dos negócios.
A gestão da cobrança não é tarefa fácil. O tempo e os custos dos procedimentos representam
longas etapas, em um caminho onde os resultados são muito
incertos, e não é factível implementar os mecanismos que este mercado requer através da pura e simples aplicação direta de soluções provenientes de outros países.
Segundo Wong, a cobrança de
dívidas de consumo como atividade começou nos últimos dois anos e o volume ainda está se estabelecendo. O país possui uma extensão muito difícil de cobrir e em muitas regiões a cobrança é feita cara a cara, em um território de 9,6 milhões de quilômetros quadrados. Atualmente, uma agência ou representação de gestão de cobrança necessita de no mínimo 2000 representantes em todo o país para uma cobertura mínima e poder prestar seus serviços.
O Crédito Empresarial
Wong considera que a inadimplência das
carteiras empresariais é grave e existe um grande número de empresas dedicadas à elaboração de
relatórios comerciais e
cobrança deste tipo de dívida em particular. A
inadimplência dos clientes físicos é menor, pois não é comum a concessão de crédito a eles sem garantia, e a emissão de cartões de crédito é muito recente, tendo tido início somente nos últimos anos.
A
análise comercial é uma atividade bastante amadurecida, o que se reflete no aumento do número de agências de Credit Reporting na China. Tais instituições permitem obter dados financeiros da Administração para a Indústria e o Comércio em províncias / cidades / povoados determinados. A Internet é outro dos canais onde grande quantidade de informações desta atividade se concentra.
Cada vez mais, as empresas sobretudo multinacionais com escritórios, filiais e joint ventures na China, compreendem a importância do
crédito e dos
relatórios comerciais ao avaliar um negócio, uma linha de crédito, ao vender / comprar, ao fazer fusões ou ao concretizar aquisições. A perspectiva de negócio do crédito e o mercado da informação comercial são promissores.