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América Central: Habitantes da região preferem o dólar

América Central: Habitantes da região preferem o dólarO alto grau de dolarização nas carteiras de empréstimos é uma constante em todos os países da região. No consumo, habitação e comércio concentram se a maioria dos financiamentos, deixando em segundo plano os empréstimos à indústria.

Por: Silvia Cabezas Bolaños - www.actualidad.co.cr
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As carteiras de financiamentos representam 50% dos ativos nas mãos dos bancos da América Central, que em 2004 ultrapassaram os US$18 trilhões.

As carteiras de empréstimos na América Central se caracterizaram, durante o ano passado, por sua concentração nas atividades de consumo, habitação e comércio, deixando em segundo plano os empréstimos para as atividades da indústria.

Muitos países se preocupam com o alto grau de dolarização de suas carteiras, como é o caso da Costa Rica, Nicarágua e Honduras.

Guatemala

Estudos do Banco de Guatemala (BANGUAT) determinam que a concessão de crédito é a principal operação ativa do sistema bancário. Quase 50% da carteira se concentram em atividades de consumo, seguido pelo comércio (19%) e indústria manufatureira (10%).

Isto contrasta com o ocorrido entre 1990 e 1991, quando a carteira creditícia do sistema bancário se concentrava na atividade da indústria, com 25,7% e 24,2% respectivamente; no entanto, nos anos subseqüentes a participação relativa do financiamento a esta atividade perdeu importância.

Vale ressaltar que uma área onde se registrou uma mudança significativa de participação no crédito bancário foi o consumo e transferências, que passou de 16% a 47%, de 1990 a 2004.

Uma tendência crescente da carteira de consumo e a baixa participação na carteira de investimentos dão a entender que a maioria dos empréstimos do sistema bancário não é utilizada para aumentar a capacidade produtiva do país.

Segundo a agência qualificadora de risco Fitch Ratings, o lento dinamismo da economia e as condições desfavoráveis no ambiente operacional dos bancos nos últimos anos se mostraram indicadores de qualidade de ativos inferiores ao ano passado. O anteriormente mencionado se reflete em maiores níveis de empréstimos inadimplentes e vencidos, considerando, além disso, que não é uma prática bancária guatemalteca manter altas coberturas de empréstimos morosos. Por sua vez, os níveis de capital dos bancos guatemaltecos são relativamente baixos em relação aos riscos em seus balanços.

Na Guatemala, as operações em moeda estrangeira foram autorizadas a partir de maio de 2001. Desde então, a carteira creditícia dos bancos experimentou uma mudança na sua composição por tipo de moeda. Segundo relatórios do Banco de Guatemala, em outubro de 2004, a carteira creditícia se distribuía percentualmente em 72% em moeda nacional e 28% em moeda estrangeira.

Durante o período 2001-2004, a carteira em moeda estrangeira registrou uma taxa média de crescimento anual de 18%, superior à de moeda nacional, que teve um crescimento médio anual de 7%.

O BANGUAT estima que o maior dinamismo experimentado pela carteira em moeda estrangeira durante esse período está associado à entrada em vigor da Lei de Livre Negociação de Divisas, ao aumento das fontes de recursos econômicos em dólar, particularmente, à maior entrada de divisas por meio de remessas familiares, assim como ao aumento do financiamento recebido de bancos do exterior, especificamente durante o último ano.

Honduras

O financiamento ao setor industrial é o principal destino dos empréstimos do sistema bancário de Honduras, concentrando 20% do total, seguido pela denominada "Propiedad Raiz" (terrenos e construções) com 19% da carteira. Ao contrário do resto da América Central, os empréstimos ao comércio e consumo ficam em terceiro e quarto lugar respectivamente.

A Fitch Ratings reconhece que ocorreram melhorias na qualidade da carteira de créditos, fortalecimento dos indicadores patrimoniais, maior eficiência operacional e maior rentabilidade, pese que as taxas de juros têm apresentado tendência de queda.

Entretanto, o sistema bancário hondurenho ainda enfrenta desafios importantes, entre os quais se destacam os altos níveis de morosidade da carteira de créditos, que somam importantes volumes de entrada nos bancos, limitando sua rentabilidade.

"O sistema bancário em geral tem apresentado tendência de aumento na oferta de crédito em dólar, o que poderia afetar negativamente a qualidade das carteiras de crédito em tempos de volatilidade do tipo de câmbio, sempre que os devedores não geradores dessa divisa enfrentam maiores dificuldades para cumprir suas obrigações", destaca a agência qualificadora de risco em seu relatório.

O Banco Central de Honduras estima que o crédito concedido pelo sistema financeiro ao setor privado não financeiro até dezembro de 2004 teve um crescimento de 14%. Destaca o comportamento do crédito em moeda estrangeira, que apresenta um aumento de 29% em 2003, contrastando com o aumento de 8,4% da carteira de empréstimos em moeda nacional.

O banco central de Honduras determina que o país tenha uma dolarização moderada, se comparado aos níveis de depósitos e créditos em moeda estrangeira na Nicarágua e Costa Rica, superiores a Honduras.

El Salvador

El Salvador é o país com maior volume de carteira creditícia da América Central (US$ 5,07 bilhões). 31% se concentram no comércio, seguido pelos empréstimos à indústria manufatureira (16%). O consumo está em terceiro lugar, com 13% do total e os financiamentos à habitação concentram 10% da carteira.

Quanto aos empréstimos, observam se bons indicadores de qualidade e níveis de reservas relativamente altos. No entanto, a Fitch sinalizou que o sistema bancário salvadorenho foi favorecido, durante os últimos anos, pela transferência do risco para outras contas do balanço, como os US$260 milhões de financiamentos ao café transferidos ao fideicomisso FICAFÉ ou o saldo atual de US$271 milhões de pagamentos com bens (em conjunto equivalem a 8,4% do total de empréstimos até setembro de 2004), além das modificações às normas que favoreceram a postergação do reconhecimento de prejuízos.

Apesar dos avanços demonstrados pelo sistema financeiro salvadorenho na última década, este, todavia apresenta certas características que limitam seu desempenho financeiro, dentre as quais, a Fitch destaca uma alta concentração de ativos, a relativamente baixa participação estrangeira e uma significativa concorrência imposta por instituições financeiras domiciliadas no exterior.

Os bancos estão levando a cabo uma série de ações, como: regionalização de operações, enfoque em segmentos que apresentam maior rentabilidade (como o de consumo), assim como na geração de outros ingressos operacionais via cobrança de taxa por serviços financeiros prestados.

Nicarágua

Informação do Banco Central de Nicarágua destaca que do total de ativos dos bancos do país, aproximadamente 45%, correspondem à carteira de crédito, para um total de US$1,13 bilhões.

O sistema bancário nicaragüense registra financiamentos em dólar e córdobas. Enquanto em moeda local, o total de empréstimos equivale a US$183 milhões (16% do total); em dólar, os financiamentos chegam a US$947 milhões (84% do total). Segundo dados da Superintendência dos Bancos, sobressaem os empréstimos em dólar a atividades comerciais (34%), seguidos pelos pessoais (19%) e os hipotecários (15%). Os financiamentos em moeda local se destinam a atividades pessoais (67%), seguidos pelos empréstimos comerciais (17%).

Segundo o BCIE, o financiamento ao setor privado registrou uma expansão de 24% durante 2004. Para 2005 as projeções indicam uma expansão similar.

Costa Rica

Segundo relatórios da agência qualificadora de risco Fitch, a maior parte da carteira creditícia dos bancos costarriquenses (77%) se concentra em dólares, concedida em boa parte a não geradores de divisas - principalmente aos setores hipotecário e de consumo - que exercem maior pressão sobre o risco creditício, o que faz com que o sistema seja mais vulnerável a "shocks".

Por sua vez, os empréstimos ao setor de habitação continuam mostrando um crescimento estável, chegando a se converterem no setor com maior participação dentro do financiamento ao setor privado em 2004 (28% do total), seguido de perto pelo financiamento ao consumo (25%). Os empréstimos ao comércio e serviços ocupam o terceiro e quarto lugar, respectivamente, nas atividades que absorvem o total do financiamento, relegando a indústria ao quinto lugar com 8% do total da carteira de empréstimos.

As análises da Fitch Ratings estabelecem que tanto a qualidade da carteira como a cobertura de reservas para empréstimos morosos apresentou uma queda durante 2004; no entanto, ainda se mantém em níveis administráveis.

Problema generalizado

O Conselho Monetário Centro americano, em seu documento "Indicadores de Dolarização das Economias da América Central e da República Dominicana", adverte que a complicação de administrar uma carteira de créditos dolarizada depende dos devedores serem ou não geradores de divisas. Para os geradores de divisas, um aumento discreto no tipo de cambio não gerará maiores problemas em termos de pagamento. No entanto, para os não geradores de divisas, um ataque especulativo contra a moeda gerará problemas de pagamento que podem contaminar o resto do sistema financeiro.

Para Guillermo Calvo, economista chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a alta incidência de empréstimos em dólar na região é um problema generalizado e qualificou como muito alto o percentual de financiamento em moeda estrangeira outorgado a pessoas físicas ou jurídicas que não contam com entradas em dólar.

Suas opiniões foram ouvidas durante a atividade "Volatilidade e vulnerabilidade do sistema financeiro costarriquense frente a situações de crise", organizada pela Academia da América Central. "A dolarização existe porque as pessoas não confiam na moeda local e procuram se proteger", assegura o economista Guillermo Calvo.

A sugestão de converter em cólons os financiamentos e conseguir que cada vez mais os empréstimos em dólar se convertam em moeda local foi desqualificada pelo gerente general do BAC San José, Gerardo Corrales, que garante que no caso de uma desvalorização, as taxas de juro em moeda local também tendem em subir, motivo pelo qual não acredita que converter em cólons os empréstimos seja uma solução no caso da Costa Rica.

Quanto à distribuição do crédito, o economista William Calvo Villegas, diretor do Departamento Econômico do Banco Central de Costa Rica, comentou que o fato das carteiras creditícias dos sistemas centro americanos estarem voltadas majoritariamente às atividades de consumo, comércio e habitação, deixando um pequeno percentual para a indústria, é uma questão de demanda de financiamento. "O que ocorre quanto ao consumo é que nele se incluem os cartões de crédito que nos últimos anos proliferaram em nossos países com o conseqüente aumento dos valores cedidos a essa atividade", explicou. Calvo aponta como outro elemento importante, o aumento da habitação nos últimos anos através da proliferação de condomínios, loteamento e o fato de que cada vez mais pessoas almejam a casa própria. Quanto ao financiamento à indústria, o economista considera que geralmente esta atividade tem acesso aos bancos internacionais e, portanto, essa situação se reflete em um baixo endividamento doméstico.

Luis Liberman, gerente geral do Banco Interfin, considera que os financiamentos concedidos à indústria crescem de acordo com o desenvolvimento desse setor e atribuiu o dinamismo das outras atividades como consumo e habitação, ao papel desempenhado pelos bancos. "Há alguns anos, não existiam facilidades de financiamento para comprar uma casa ou um carro, era necessário ter dinheiro guardado, recorrer a familiares ou negociar com o vendedor. Agora isso foi transferido aos bancos", garante.

�lvaro Saborío, gerente geral do Banco Cuscatlán de Costa Rica, considera que em anos anteriores as carteiras se concentravam em empréstimos corporativos, agora os empréstimos de consumo e habitação são o motor financeiro nos países centro americanos.
Segundo José Manuel Iraheta, economista do Conselho Monetário Centro americano, os bancos se guiam por critério de rentabilidade e vão dividindo o bolo de forma racional. Ele explicou que há uma corrente econômica denominada "racionamento do crédito", na qual os bancos estão interessados em segmentos onde sabem que existe bastante rentabilidade e que são seguros, sendo assim julgam e analisam racionalmente o solicitante de crédito.

"Os empréstimos para a aquisição de casa própria são muito seguros, já que ninguém quer perder seu lar e para os bancos é um negócio que se protege por si. Na contramão - assegura Iraheta – há outros ramos de atividade que são mais sensíveis e não tem muito valor agregado, por exemplo, o setor agropecuário, onde também existem perdas na comercialização".

O comercio é um dos setores que mais se favoreceu com a abertura comercial experimentada há 10 ou 15 anos. O aparato produtivo vai se diversificando e o turismo se apresenta como uma atividade na qual muitos banqueiros apostariam.

Para Iraheta, de certo ponto de vista é bom que os bancos exerçam a racionalização do crédito, já que isso lhes permite eliminar os riscos e dessa maneira conseguir uma gestão mais eficiente.

O desafio

O grande problema, no que se refere ao crédito, continua sendo o acesso aos empréstimos pelas micro e pequenas empresas (MyPE) que na América Central continuam sendo consideradas uma das fontes de emprego e ingressos mais importantes. Estima se que cerca de 30% da população centro americana economicamente ativa está neste setor, representando 2,3 milhões de pessoas. Estudos do BCIE sinalizam que, ainda que os bancos privados concentrem entre 85% e 90% dos financiamentos da região, apenas 2% de suas carteiras se destinam as micro, pequenas e médias empresas (MIPyME). Incluindo se outras entidades financeiras, este percentual sobe para 5%.

Segundo estudos da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), o recurso financeiro para as micro e pequenas empresas representa custos superiores aos das grandes empresa. O sistema bancário privado na América Central opera com custos que vão de 3% a 16%, expressos em percentual da carteira. O setor de microcrédito, salvo algumas organizações bem sucedidas, opera com custos superiores a 25% na maioria dos casos. "Os métodos de financiamento que deram origem ao microcrédito (bancos comunitários, grupos solidários, entre outros) parecem esgotar se e nota se uma tendência evidente à individualização do crédito e ao uso da garantia real como mecanismo de respaldo para operações creditícias", mostra o estudo da CEPAL, intitulado Microcrédito na América Central: avanços e desafios.

Neste sentido, vários ramos de atividades que não contam com garantias reais não se qualificam para solicitar empréstimos e a presença na região de entidades que financiem capital de risco é realmente escassa.

Segundo o BCIE, os empréstimos às MIPyME somam atualmente aproximadamente US$1,04 bilhões, de forma que apenas 18% da demanda por crédito das MIPyME está sendo atendida. Ou seja, o sistema financeiro formal e não formal não atende adequadamente a demanda de financiamento das MIPyME na América Central. Por isso, o desafio a resolver com presteza na região, é como conseguir o financiamento destas MyPE, motor das economias regionais.

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