I2CREDIT Nº 20
Crédito elevado explica alta inadimplência em classes D e E
Uma série de medidas do governo Lula iniciadas em 2003 estimularam o aumento de crédito para a população de baixa renda.
A ampliação do crédito para a população de baixa renda aumentou a inadimplência das classes D e E.
Por: Bruno De Vizia - DCI - SP
Pesquisa da empresa Telecheque, especializada em gestão de risco, aponta que as classes D e E - formadas por pessoas que ganham entre R$ 350 e R$ 700 - são a maioria dos inadimplentes (22%), seguidos pela classe C, que tem 21% dos inadimplentes.
A principal causa, segundo Marcos Vinícius Pereira, coordenador de comunicação da Telecheque, é a ampliação do acesso ao crédito para as classes populares. Uma série de medidas do governo Lula iniciadas em 2003 estimularam o aumento de crédito para a população de baixa renda, como a criação do Banco Popular do Brasil e de contas simplificadas, que têm custo zero de manutenção, são isentas de CPMF, e têm limite de movimentação de mil reais.
Em 2003, o governo, por meio de medida provisória, determinou que 2% dos depósitos à vista fossem destinados ao microcrédito para o setor produtivo e para o consumo. Os recursos, que inicialmente eram da ordem de R$ 1,2 bilhão, cresceram 41,66% em três anos, atingindo R$ 1,7 bilhão em agosto deste ano. O Banco Popular do Brasil, uma subsidiária do Banco do Brasil focada no mercado informal, iniciou suas operações com capital social de R$ 24,5 milhões, que em maio de 2004 foi aumentado para R$ 92 milhões.
Segundo Gilson Bittencourt, secretário executivo do Grupo de Trabalho Interministerial de Microcrédito, do Ministério da Fazenda, o valor contratado entre 2004 e agosto de 2006 foi de R$ 3,5 bilhões, sendo que 92% destes recursos são de uso livre, modalidade na qual aquele que empresta não precisa dizer para o que vai usar, empresta como consumo. Até hoje foram 19,1 milhões de operações envolvendo R$ 2,5 bilhões.
Bittencourt destaca que no início das operações a inadimplência chegava a 25%, "pois os bancos não conheciam os clientes". Ele afirma que o índice de inadimplência aceitável para microcrédito é abaixo de 5%, "até porque o risco não é do governo, é das instituições de microcrédito. Acima disso elas quebram", diz. Bittencourt ressalva que atualmente os índices de inadimplência são menores, pois os mecanismos de concessão de crédito estão mais eficientes, e cita como exemplo a Caixa Econômica Federal, que criou um mecanismo de análise de crédito que diminuiu os índices de inadimplência.
Melhorar os mecanismos de concessão também é a solução apontada por Renato Meirelles, sócio da consultoria Data Popular, especializada em consumidores de baixa renda. Para Meirelles, a questão hoje não é "dar ou não crédito, e sim como". Ele explica que o método mais utilizado para análise de concessão de crédito é o Credscore, que é um questionário que aufere o risco de se emprestar dinheiro para um determinado indivíduo, mas que este método foi desenvolvido para as classes A e B. A saída, segundo Meirelles, seria "desenvolver um Credscore para consumidores das classes D e E, que contemple o fato que no Brasil 54% do mercado de trabalho é informal. Essas pessoas têm dinheiro e renda, mas não conseguem comprovar crédito".
Um projeto em tramitação na Câmara prevê a criação do "cadastro positivo", isto é, um cadastro que registre mês a mês as prestações pagas em compras parceladas, e desta forma contemple o histórico dos consumidores que pagam em dia. Meirelles exemplifica: "os serviços de proteção ao crédito (Serasa e SPC) só penalizam o mal pagador. É preciso criar mecanismos que valorizem o bom pagador, para que ele possa receber juros diferenciados, menores", afirma. Tanto Pereira quanto Meirelles acreditam que a inadimplência das classes populares deve aumentar em um primeiro momento, mas que a tendência é a estabilização, com o desenvolvimento de mecanismos de concessão de crédito mais eficientes, e com estes consumidores se acostumando a planejar melhor as compras.
Para Meirelles, "a inadimplência faz parte do jogo. Mas existe um processo de adequação do consumidor que não tinha crédito e passou a ter. Com o tempo as empresas vão melhorar os mecanismos de concessão de crédito, e os consumidores vão se acostumar a usar melhor este crédito", conclui.
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