I2CREDIT Nº 24
Os bancos flexibilizam seus padrões de crédito para competir com os varejistas
A necessidade de agilizar a aprovação dos empréstimos fez com que os métodos de análise de crédito mais automatizados ganhassem espaço. Noventa por cento dos casos, não se pede, aos clientes, documentação para demonstrar rendas.
Por: Clara Agustoni Fonte: Cronista Comercial
Ertola: "Com os varejistas somos, ao mesmo tempo, competidores e colaboradores".
Novaro: "Atualmente, os bancos tentam conseguir que a entrega do crédito seja imediata".
De Benedetti: "É necessário ampliar os critérios para poder incluir os que não têm contas bancárias".
Passada a crise, os bancos se empenharam em incrementar o volume de clientes para - no mínimo - recuperar o nível de empréstimo que costumavam autorizar nos bons tempos. Entretanto, o cenário mudou muito desde os anos 90: aparecerem novos atuantes, como os varejistas, que prometem financiamento imediato, no momento de consumo e com taxas relativamente acessíveis.
Para competir com eles, os bancos se viram obrigados a agilizar os processos, permitindo assim o ingresso de mais gente ao sistema financeiro. Nessa área a tarefa do departamento de risco de crédito se tornou imprescindível. Por este motivo, O Cronista convocou para o Fórum Financeiro Silvia Novaro, que está à frente da área de Risk Management do Citibank; Carlos Ertola, gerente de Créditos para Pequenas Empresas do Banco Galícia; e Andrés De Benedetti, gerente de Riscos e Legais do Banco Supervielle, para falar dos novos parâmetros de risco de crédito que estão movimentando os bancos atualmente. E a conclusão foi uma só: as entidades estão mais dispostas a arriscar e isto está refletindo na aplicação de critérios mais flexíveis na hora de adquirir novos clientes.
"Depois da crise, todos os bancos saíram agressivamente a recuperar a cota de mercado que haviam perdido. Para isso, através do departamento de risco, tiveram que colaborar sendo flexíveis com a documentação que pediam ao cliente e incorporar um set de ferramentas padronizadas para agilizar a entrega dos créditos", disse Novaro. "De fato, creio que o objetivo da gestão de riscos é tanto minimizar perdas como ajudar a incrementar as vendas", acrescentou.
Deste modo, os especialistas asseguraram que a análise de risco foi automatizada. De fato, diferente do que ocorria no passado, hoje em dia, mais de 90% dos empréstimos se autorizam sem que o cliente deva apresentar documentação para comprovar renda. "Ganharam espaço os métodos para prever lucros e as técnicas de scoring, graças ao desenvolvimento cada vez maior dos Bureaus de Crédito (como o Veraz). Isto permite que, em muitos casos, se possa ter acesso ao histórico de crédito de uma pessoa contando apenas com seu DNI", diz Ertola.
Na mesma linha, De Benedetti afirmou que no caso dos clientes de bancos, o documento de identidade é suficiente para deduzir o nível socioeconômico e a capacidade de pagamento de uma pessoa. "Entretanto, hoje o desafio é outro: é necessário conseguir a primeira conta bancária, atender ao grupo de pessoas que ainda não teve acesso ao sistema financeiro formal", diz. Um segmento que, em um país como a Argentina, representa mais da metade da população. "É necessário ampliar os critérios para poder incluir estas pessoas que quase estamos comprovando que cumprem com suas obrigações. No Banex, por exemplo, chegamos ao segmento de aposentados: um grupo que ninguém atendia e que quase não atrasa pagamentos" acrescentou De Benedetti.
Dez minutos para um empréstimo
Além da necessidade de incorporar novos clientes, o que motivou a flexibilização dos padrões de créditos foi a aparição de novos atuantes no mercado do financiamento. "Os comerciantes de pequenas empresas estão financiando ao consumidor e fazem isso muito bem. Temos que aprender a competir com eles, pressionando os bancos para gerar produtos mais ágeis: hoje as entidades tentam fazer com que a entrega do crédito seja imediata", afirma Novaro.
Neste sentido, a representante do Citibank explicou que as entidades contam hoje com duas opções que supõem um gerenciamento mais flexível dos riscos de crédito. "Por um lado, temos os empréstimos pré-aprovados e pré-acordados. Neste caso, o cliente que chega a pedir crédito pode contar, em pouco tempo, com determinada quantidade de dinheiro à sua disposição na conta corrente, valor que pode retirar imediatamente com o cartão de débito. Outra alternativa é fazer acordo com cada varejista para estar no ponto de venda: o que se chama Crédito Direto ao Consumidor", diz.
"Com os varejistas somos competidores e colaboradores ao mesmo tempo", diz Ertola. "Isto se deve porque a melhor forma de flexibilizar o crédito é ter informação de mercado. Nesse sentido, é bom que juntos possamos enriquecer a base e o conhecimento em torno do comportamento de crédito de nossos clientes", acrescentou.
Mas obviamente, as entidades têm seus limites. E muito importante é aquele que indica o Banco Central (BCRA), que até pouco tempo colocava barreiras muito importantes para a flexibilização dos padrões de risco. De todas as formas, os experts concordaram que, sem dúvida, a entidade que preside Martín Redrado está acompanhando bem a intenção dos bancos de abrandar seus padrões. "As últimas normativas que foram apresentadas demonstram isso. Creio que tanto o mercado como o BCRA segue na mesma direção", acredita Ertola.
"Um avanço importante creio que foi a linha de inquilinos, porque pela primeira vez o Banco Central permitiu autorizar créditos hipotecários apenas apresentando o recibo do aluguel", diz De Benedetti.
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