Domingo 05 Setembro 2010
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I2CREDIT Nº 29

Capitalismo para os pobres, segundo Yunus

Capitalismo para os pobres, segundo YunusApesar da crise alimentar mundial e do astronômico preço do barril de petróleo, acabar com a miséria é possível. Otimista assim que se mostra o economista Mohamed Yunus, conhecido como “o banqueiro dos pobres” e autor de Um mundo sem pobreza (Paidós, Barcelona, 2008), que acaba de ser publicado em espanhol.

Por: Cristina Álvarez | Foreign Policy Edición Española
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FP em espanhol: A Foreign Policy e a Prospect elaboraram a lista 2008 dos 20 intelectuais mais importantes do mundo. Você ficou em segundo lugar (de uma lista de cem nomes e com uma participação de meio milhão de votantes). Conhecia sua boa classificação?

Mohamed Yunus: Sim, sabia porque saiu nos jornais e quando li foi uma grande surpresa. Ao lê-lo nos perguntamos quem terá sido o primeiro?

FP: Em seu livro você diz que nos próximos anos, 500 milhões de pessoas sairão da pobreza. Em contrapartida, os últimos dados sobre a crise alimentar falam que outros 100 milhões cairão nela. Depois do ocorrido nos últimos meses, dado os acontecimentos, mudaria suas expectativas?

MY: Não, ao contrário. O que precisa ser feito é abordar os problemas. Exatamente, a vantagem dos micro-créditos é que são muito mais flexíveis. Quando sobem os preços, a pessoa pobre, que tem pequenos negócios, pode também aumentar os preços de seus produtos e não perde tanto dinheiro assim se, por exemplo, tiver um salário fixo, onde teria menos margem. Embora, obviamente, as famílias pobres são as mais atingidas. O grande desafio deve ser controlar o aumento do preço dos alimentos.

FP: Você é otimista quanto à consecução da chamada Declaração do Milênio. Acredita mesmo que estão sendo cumpridos os desafios previstos?

MY: Antes da crise, creio que, no mundo, estávamos nos aproximando dos objetivos estabelecidos na Declaração do Milênio. Por exemplo, Bangladesh se encontrava em uma boa posição para conseguir os oito objetivos do Milênio: em seis estava indo muito bem e em dois, um pouco atrasado, mas nos próximos 5 ou 8 anos poderia consegui-lo. Existem muitos países asiáticos que vão poder alcançá-los e que se encontram entre as grandes potências econômicas. O problema maior é a África, onde há muito poucos Estados que podem consegui-lo. Isso era antes da crise. Agora, provavelmente o cálculo seja diferente e o futuro algo mais difícil. O que temos de fazer é buscar programas para superar esta pressão e alcançar de toda a forma esses objetivos. Tenho a esperança de solucioná-lo, mesmo que a África necessite de um esforço especial.

FP: Um dos conceitos que o fizeram famoso é o dos micro-créditos concedidos pelo banco que você criou, o Grameen Bank. Em que consiste este sistema de ajuda? Seria possível exportá-lo aos bancos comerciais?

MY: O sistema de micro-créditos consiste em emprestar dinheiro aos mais pobres. Estão destinados às pessoas mais desfavorecidas, e se concentram, sobretudo, nas mulheres. Contam com uma série de características especiais, como não exigir nenhum contrato, garantia econômica prévia do solicitante, nem advogados. O objetivo é emprestar dinheiro a famílias que precisam para realizar algum tipo de atividade econômica e que possam ir desenvolvendo depois, aos poucos, a cada semana. A razão pela qual começamos com o sistema de micro-créditos foi justamente para os bancos comerciais. Toda nossa intenção é convencê-los a fazerem o mesmo ou que colaborem com fundações que trabalhem com micro-créditos. A maioria não faz isso, mas alguns já apóiam a idéia.

FP: Você critica o atual enfoque da ajuda humanitária e a cooperação internacional, porque acredita que se apóiam na caridade e desembolsam bilhões que não ajudam de maneira efetiva. Qual seria a direção adequada?

MY: As agências bilaterais de ajuda ou o Banco Mundial trabalham com procedimentos por meio dos Governos, mas dar dinheiro deste modo não é um bom sistema. A sociedade civil é muito mais ativa, dinâmica e inovadora. Ainda permanece o modelo dos 60, mas o mundo mudou muito. O que se necessita é uma mudança na metodologia para poder trabalhar diretamente com essa sociedade civil, no setor privado, no setor público... As grandes empresas dos países ricos podem tentar criar empresas sociais relacionadas com temas como a sanidade, a higiene ou a habitação. Outro erro no enfoque é que muitas vezes a pobreza se define pelo umbral do dólar diário, se a pessoa vive com menos que esse valor, ou pela quantidade de calorias que consome cada dia. São definições inexatas onde há muitas exceções. O Grameen Bank tem uma tabela de dez indicadores para consultar em cada caso. Se a família vive em uma casa que tem teto, se tem banheiro e móveis (como uma cama), se tem algum tipo de poupança para emergências ou se os filhos vão para a escola. Destes dez pontos, se um deles tiver resposta negativa, pode-se considerar que a família é pobre. É muito segura e fácil de contrastar, é possível ver e medir as fontes de entradas e todas as dimensões da pobreza.

FP: Também faz uma divisão das culpabilidades na situação atual do mundo e parece que tira a responsabilidade dos Estados. Não acredita que são eles quem têm a responsabilidade do que ocorre em seu país e como vivem seus cidadãos?

MY: Obviamente que a tarefa dos políticos e o trabalho dos governos é cuidar de seus cidadãos. Se as políticas não são bem feitas, obviamente, são culpáveis. Mas a miúdo, a maquinaria estatal é muito lenta e não é eficaz. Muitas vezes já é um avanço que o Governo acredite em um ambiente favorável e possibilite a ação de outros atores mais eficazes.

FP: Como encaixam seus conceitos de "empresas sociais" e "bancas dos pobres" no mundo capitalista de hoje?

MY: Nós seguimos os princípios do capitalismo. Mas no sistema atual existe um grande espaço que segue sem ser preenchido que é o de criar empresas para fazer o bem em vez de dinheiro. E estamos tentando preencher esse vazio criando instituições que se encarreguem disso onde os pobres são os donos. Isto não é habitual na prática, mas não há nenhum princípio do capitalismo que diga que não pode se fazer, nem que os pobres não possam ser proprietários de uma empresa. Este processo pode mudar as vidas de muita gente. Faltam estas idéias e também empresas sociais, que podem entrar no marco capitalista porque não violam nenhum de seus princípios, que são a competência e o livre mercado. Na realidade, é uma melhor forma de capitalismo, mais aberto e real para a gente.

Mohamed Yunus (Bangladesh, 1940) é economista e criador do Grameen Bank, projeto pelo qual recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2006. Escreveu vários livros que explicam como a população mais carente também pode participar do atual sistema bancário dos pobres: os micro-créditos e a batalha contra a pobreza no mundo (Paidós, Barcelona, 2007).

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