A ÉTICA EM TEMPOS DE CRISE: Entrevista com o Clóvis de Barros Filho


Nunca se falou tanto de ética como hoje em dia. O momento de crises – econômica, de imagem, política, energética e hídrica – tirou a ética do âmbito dos estudiosos e filósofos para trazê-la para os noticiários e conversas cotidianas. Mais pessoas estão refletindo sobre o tema, questionando o que é certo e errado, como pensar e como agir. Mas será que o contexto socioeconômico atual também acarretou uma crise de ética para o Brasil?

A Credit Performance conversou com exclusividade com Clóvis de Barros Filho, um dos mais importantes professores e especialistas em ética do país. Formado em direito e jornalismo e doutor
em ciências políticas pela Universidade de Paris, o professor já foi pesquisador e consultor de ética da UNESCO. O especialista também palestrou em todos os estados do Brasil e também no Uruguai, França, México, Argentina e Portugal, explicando que a ética é a preocupação de todos com a convivência, a vitória da vontade geral sobre a vontade de cada um.

Para o professor, o Brasil vive um período de muitos avanços no campo da ética. “A evolução moral de nossa sociedade atingiu seu ápice ao tratar de esquemas arraigados de corrupção, como os da Petrobras. Minha geração jamais acreditou que isso aconteceria um dia”, explica Clóvis. Segundo ele, o preconceito sobre a orientação ética do povo brasileiro foi construído pela elite para desmoralizar a participação popular na política.

A evolução moral de nossa sociedade atingiu seu ápice ao tratar de esquemas arraigados de corrupção, como os da Petrobras. Minha geração jamais acreditou que isso aconteceria um dia. Mas
ainda há muito para ser feito e estamos no caminho certo. O compromisso político de combate à corrupção feito por Dilma foi cumprido, o que tem gerado muitas rebeliões no congresso, desgastes no meio empresarial e muitas notícias ruins. Não existem reformas tranquilas.

Credit Performance – Em períodos de crise, a palavra ética é usada à exaustão. Você acredita que as pessoas conhecem realmente o significado ou banalizam o termo?
Clóvis de Barros Filho: As pessoas têm uma certa consciência do termo ética. Cometem muitos equívocos, mas no geral banalizam muito o termo. Ética está ligada à liberdade, à reflexão sobre a própria ação, e não ao policiamento ou controle do ser humano. Ocorre que a palavra ética se tornou um atrativo comercial para vender ou desqualificar o concorrente, o que polui muito as discussões públicas.

CP- Como explicar, de modo simples, o que é eticamente e moralmente aceito? A ética é temporal? É adaptável ao local e às sociedades em que é aplicada?
CBF.: A ética é o estudo dos valores que regem as condutas humanas. O termo moral (mor morus) é a tradução latina do conceito grego ética (ethos). O exercício da ética sempre existirá enquanto houver liberdade. Já os valores podem sofrer variações histórico–culturais.

CP- Em meio a tantas crises (de imagem, econômica, política, hídrica e energética), você acredita que o Brasil vive também uma crise ética? Se sim, por quais motivos?
CBF.: O Brasil vive um período de muitos avanços no campo da ética. Lembro-me que na ditadura civil-militar a corrupção nas estatais era muito maior, mais explícita, e só não era discutida por causa da censura e da repressão. As chantagens para obter atendimento ou um serviço de qualidade em bancos, hospitais, escolas, universidades ou nos tribunais era tão descarada que tinha até tabelinha de corrupção divulgada por secretárias e enfermeiras. Quem trabalhou como advogado ou jornalista naquela época se lembra muito bem destas cenas bizarras. Com a redemocratização houve pouco avanço, principalmente nos governos Collor e FHC.

CP- Você descreveria o chamado “jeitinho brasileiro” como a capacidade de flexibilidade e de adaptação dos brasileiros diante de adversidades, ou como um modo de se aproveitar em qualquer situação, seja em contexto de crise ou não?
CBF: O jeitinho brasileiro surgiu das necessidades de enfrentar as adversidades de trabalho e sobrevivência frente aos problemas econômicos enfrentados pela população. Mesmo no campo da moral, o jeitinho brasileiro serve como ato de resistência às hipocrisias morais que tentam nos empurrar.

CP – Alguns autores acreditam que as referências dos brasileiros em relação aos seus conceitos éticos vieram dos europeus. Você acha que o continente europeu, em especial em países como Alemanha, Suíça, Dinamarca etc., continua como referência principal porque é onde supostamente a “sociedade funciona melhor”?
CBF.: Temos excelentes teóricos brasileiros no campo da ética, mas, como somos uma país elitista e racista, simplesmente os ignoramos. Machado de Assis, Mário de Andrade, Mário Quintana, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Bento Prado Jr e Marilena Chauí são exemplos de mentes brilhantes que escreveram sobre a ética em nosso país.

Esse preconceito sobre a orientação ética do povo brasileiro foi construído pela elite para desmoralizar a participação popular na política. Quem já morou fora do país sabe que o brasileiro é tão honesto ou desonesto quanto um italiano, alemão, inglês ou francês. Os escândalos de corrupção também pipocam nos países de primeiro mundo e são mais divulgados do que aqui. Alemanha, Espanha, Suíça e Israel tem povoado o noticiário internacional com corrupções políticas e comerciais que superam as irregularidades das investigações da Lava Jato.

O que piora nossa sensação de imoralidade reside em dois fenômenos: primeiro, os meios de comunicação de lá valorizam muito as boas ações e exemplos de políticos, empresários e cidadãos comuns – eles se tornam referência para os demais. Segundo, as punições são muito rígidas para deslizes morais e legais. A imoralidade não é problema de uma determinada raça, nacionalidade ou cultura. Mas os meios de comunicações ainda utilizam uma ideologia preconceituosa de comparar
nossos problemas com o pseudossucesso dos povos caucasianos.

CP – Como a globalização interfere na ética de uma sociedade?
CBF.: Ela tem relativizado valores e costumes. Também tem proporcionado inúmeros deslizes éticos em escala global.

CP – Apesar de vivermos em sociedade, o individualismo e a gratificação imediata no qual contratos, laços e pessoas tendem a ser descartados parecem ser a base dessa nova geração. Como encontrar o equilíbrio entre o ‘eu’ e o os conceitos éticos que falam à coletividade?
CBF.: Tem sido uma luta dura. Apesar da família, escola e igrejas estarem unidas contra o individualismo, militando em prol de valores coletivos de convivência, todo o mercado de consumo e trabalho adotam o individualismo como único valor. As campanhas de marketing vendem o egoísmo hedônico e ético. Os departamentos de recrutamento e seleção exigem “líderes” competitivos em suas empresas. Discursos como “bem comum” e “agenda social” se tornaram marketing social para ludibriar nossos resquícios de solidariedade.

Deixe uma resposta

.footer-main { background:none; }