Entrevista com Murillo de Aragão: Vem reforma política pela frente?


O assunto das eleições políticas ficou para trás. Após a definição dos nomes que guiarão os rumos econômicos e políticos pelos próximos quatro anos nas esferas federais e estaduais, especialistas começam a analisar o que vem pela frente. “É fundamental que a presidente mude seu padrão de comportamento dos primeiros quatro anos para reconquistar o apoio dos setores da sociedade que hoje criticam a atual gestão”, aponta Murillo de Aragão, fundador e presidente da Arko Advice, além de advogado e um dos mais respeitados cientistas políticos do Brasil. Na opinião dele, a recuperação da credibilidade do governo junto ao setor corporativo e empresarial depende de gestos concretos da presidente. Recentemente, Aragão esteve no “Programa do Jô”, na Rede Globo, para uma entrevista sobre a necessidade de uma reforma política brasileira.

O assunto é frequentemente abordado, porém pouco executado, como bem pontuou o especialista. O cientista político mantém uma coluna nos jornais “O Liberal” e “O Tempo”, bem como no “Blog do Noblat”. Mestre em Ciência Política e doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília, Aragão também é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República – CDES e presidente do Instituto Brasília, centro de pesquisas em políticas públicas. Em entrevista exclusiva à Credit Performance, o especialista discute não apenas o que esperar dos políticos, mas também a postura do eleitorado brasileiro e como o setor internacional enxerga os rumos do país. “Caso o mercado não se sinta seguro em relação aos rumos da economia brasileira, é pouco provável que o pessimismo atual com o governo seja revertido. Para isso, é fundamental ter uma equipe econômica, principalmente o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central, que transite bem no mercado”, explica Aragão, sem deixar de mencionar como fica o crédito diante desse cenário. “A expansão do crédito para alavancar o crescimento econômico parece ter chegado ao limite”, diz.

Credit Performance– os anos de 2013 e 2014 foram controversos, marcados por manifestações de amor e ódio em relação às decisões políticas. Como o Sr. enxerga o atual perfil do brasileiro em relação à consciência de seu poder e dever político? a grande questão em relação a convivência entre governo e sociedade atualmente?

Murillo de aragão – O perfil do eleitor brasileiro em relação à sua consciência política segue o mesmo padrão. Ou seja, o eleitor pensa a política a partir de sanções, sobretudo na economia, que impactam o seu dia-a-dia. Em que pese o amadurecimento da democracia, não temos uma opinião pública que majoritariamente está interessada em grandes temas do debate político. A grande questão em relação a convivência entre governo e sociedade, principalmente após a eclosão dos protestos de junho de 2013, é que parte importante da sociedade brasileira não se sente representada pelo atual sistema político.

CP– fala-se muito sobre a necessidade de uma reforma política. na sua opinião, quais são os pontos prioritários e por quê? Há sinais que levam o governo atual a ir nesse sentido da reforma?

MA– A reforma política é uma bandeira que sociedade, congresso, partidos e governos são favoráveis. No entanto, não há consenso em relação a esse tema, em função de sua complexidade. Diante desse fato, é difícil estabelecer o que são pontos prioritários. O que é prioridade para um determinado segmento ou partido não é para outro. E vice-versa. No momento, não há condições de se fazer uma reforma política imediata sem uma crise institucional de grandes proporções. Portanto, proponho que ela seja feita em etapas. E para tal, faço uma analogia com as regras da Basileia sobre a consistência do sistema financeiro. Elas entraram em vigor de forma escalonada. Proponho três medidas para as próximas eleições: o financiamento cidadão de campanhas eleitorais; teto rigoroso de despesas por tipo de candidatura; e a proibição de coligações para eleições legislativas. As demais etapas devem ser discutidas e implementadas adiante.

CP– Qual é a sua opinião sobre a nomeação de Joaquim Levy ao cargo de Ministro da fazenda? Qual é o impacto na política e economia brasileira? o que deve mudar?

MA– A nomeação de Joaquim Levy foi uma importante sinalização ao mercado, que não enxerga credibilidade no atual ministro da Fazenda, Guido Mantega. A grande incógnita agora é saber qual será a autonomia que Levy terá a frente da Fazenda. Mais importante que isso: quais serão as medidas de ajustes que irá implementar. Por ser um economista formando na Escola de Chicago, de matriz econômica ortodoxa, a tendência é que Levy implemente mudanças.

CP– Tivemos um grande boom de crédito nos últimos anos, o que foi importante para o país. o Sr. é favorável ao fomento do crescimento do PiB por meio do crédito? Como enxerga esse mercado creditício com base no consumo?

MA– Fomentar o crescimento econômico através do crédito é uma medida importante, principalmente para aumentar a distribuição de renda. Porémesse modelo tem um prazo de duração. No caso do Brasil, por exemplo, a expansão do crédito para alavancar o crescimento econômico parece ter chegado ao limite, segundo os economistas. Assim, necessitamos da atração de investimentos, que cobram uma maior previsibilidade da política econômica do atual governo, para voltarmos a crescer.

CP– em 2009, a Revista The economist publicou a capa com o título “Brazil Take off” (Brazil decola). no ano passado, a mesma revista publicou uma nova matéria dizendo que o caminho foi errado. Quais são as mudanças necessárias para que o mercado internacional veja o país com otimismo novamente? Qual é a real importância disso para o Brasil?

MA– Em relação ao mercado, a primeira medida fundamental é recuperar a confiança. Caso o mercado não se sinta seguro em relação aos rumos da economia brasileira, é pouco provável que o pessimismo atual com o governo seja revertido. Para isso, é fundamental ter uma equipe econômica, principalmente o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central, que transite bem no mercado. Sem essa recuperação da confiança, será mais difícil atrair investimentos e, consequentemente, voltar a crescer.

CP– olhando para alguns vizinhos da américa Latina, percebemos que governos populistas têm certa carga de antipatia por parte do mercado internacional. Quais são as semelhanças do governo brasileiro com esses países latino-americanos e o que poderia ser feito para aumentar a confiabilidade do Brasil perante o mercado internacional?

MA– A simpatia ocorre no campo ideológico por parte de alguns setores do governo, localizados principalmente no PT. Em termos de política, não há como comparar a situação do governo Dilma com a realidades política da Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador,etc. Apesar de Dilma fazer uma política mais a esquerda que a gestão Lula, estamos ainda distante de um governo populista.

CP– ainda analisando o cenário latino-americano, pode-se dizer que há um fenômeno da volta de governos populistas, baseados em subsídios sociais? Temos o Bolsa família, no Brasil, e outros planos sociais que são o carro-chefe dos políticos na argentina, Bolívia e Venezuela, por exemplo. Qual sua opinião sobre o papel do governo em relação ao enfrentamento da pobreza por meio da doação de renda ao invés da geração de renda? Como isso interfere no incentivo e na formação da população ativa e crescimento desses países?

MA– As políticas de transferência de renda, por meio de programas como o Bolsa Família, são importantes. Além de diminuírem a desigualdade social, contribuem para reduzir a criminalidade nos grandes centros urbanos (na medida em que com uma renda, mesmo que pequena, parte da famílias opta por permanecer nos chamados grotões).  O problema é que precisamos avançar numa política de superação da pobreza e não apenas administrar a situação atual.

CP– nesse sentido, o que poderia ser feito?

MA– Uma medida importante seria aumentar os investimentos em educação. Fortalecendo a educação, ocorre um aumento do acesso da população às universidades, criando uma mão de obra mais qualificada. Com cidadãos melhores instruídos, eles serão naturalmente absorvidos pelo mercado de trabalho.

CP– essa eleição foi marcada por uma grande oposição do setor corporativo e empresarial ao atual governo. Com a reeleição da presidente, esses segmentos preveem investimentos mais baixos para os próximos anos. o Sr. acredita que o governo atuará no aumento de sua credibilidade entre esse setor? Como esse cenário pode ser revertido?

MA– A recuperação da credibilidade do governo junto ao setor corporativo e empresarial depende, assim como na relação com o mercado financeiro, de gestos concretos da presidente Dilma. Após à reeleição, Dilma falou em dialogar. Porém, ao menos por enquanto, não chamou tais setores para o diálogo. É fundamental que a presidente mude seu padrão de comportamento dos primeiros quatro anos para reconquistar o apoio dos setores da sociedade que hoje criticam a atual gestão.

CP– na sua opinião, qual é o padrão de comportamento atual e como deveria ser?

MA– Nos últimos quatro anos, a presidente Dilma Rousseff tomou decisões ouvindo pouco os aliados. Mesmo entre o PT, seu partido, o diálogo foi tênue. Não foi por acaso que o chamado “Volta, Lula” demorou para sair completamente da agenda. Além de partilhar do poder, dando peso proporcional aos partidos aliados dentro do novo ministério, é fundamental que Dilma forneça autonomia a legenda na administração da pastas, e, principalmente, dialogue mais com o Congresso.

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