Entrevista: Roque Pellizaro Júnior


Roque Pellizaro assume em Março deste ano a presidência do SPC Brasil. Em entrevista exclusiva à Credit Performance Online, o executivo fala sobre o panorama da economia e da indústria de crédito em 2015 e o papel do SPC no desenvolvimento do crédito sustentável.

Credit Performance:  Como já foi muito comentado, 2014 foi um ano difícil e atípico – com copa do mundo, eleições e definição da nova equipe econômica. Como você analisa o contexto da indústria de crédito, diante de todas essas dificuldades? Qual sua perspectiva para essa indústria em 2015?

Roque Pellizaro: A concessão de crédito flutua basicamente em torno de três fatores: o dinheiro, a capacidade de tomada de crédito e o interesse do consumidor em fazê-lo. A partir do início do 3º trimestre de 2013 notamos que o mercado passou a restringir o crédito à medida em que percebeu que os consumidores estavam perdendo a capacidade de pagá-lo.  Além disso, o mercado se viu diante de uma grande incerteza sobre os rumos da economia brasileira, tanto pela escolha do presidente da república quanto pela definição da equipe econômica. O crédito não expandiu, mas devemos levar em consideração de que isso também possui um lado positivo: a retração impediu uma crise de inadimplência. Assim, até que o mercado consiga se estabilizar, o que imagino que ocorra apenas em 2016, o consumo de produtos de valor mais elevado, como imóveis e veículos, continuará sendo afetado neste ano de 2015.

CP: Ainda pensando no que está por vir, o que a indústria espera e precisa, em termos de medidas governamentais e privadas, para o segmento de crédito conseguir crescer de forma sustentável?

RP: Quando o consumidor faz um empréstimo é porque ele pretende para fazer uma compra ou investimento. Assim, em algum momento, ele deve parar de consumir para pagar o que deve. Foi exatamente isso que o consumidor fez em 2014 e deve seguir fazendo em 2015. Isso significa que não há nenhuma iniciativa que as empresas possam tomar para que haja uma expansão rápida do crédito e, na realidade, não acho que isso seja aconselhável.  No que diz respeito às medidas governamentais durante o ano de 2015, deve-se vislumbrar uma retomada da expansão do crédito para o ano seguinte. Tal retomada só poderá ser feita através do alívio dos juros, da inflação e maior prazo de pagamento.

CP:  Em relação aos índices de inadimplência do país, qual é a sua análise de 2014 e quais os fatores devem ser fundamentalmente trabalhados por todos os atores da indústria de crédito para que o problema seja mitigado?  

RP: O grande segredo está em fornecer crédito com qualidade, e esse é o nosso grande desafio para 2015. Ainda existem muitas famílias e empresas que não conseguem para tomar crédito sem se tornarem inadimplentes. Assim, os critérios de concessão de crédito devem ser mais rigorosos. Nós, enquanto birôs de crédito, estamos trabalhando no desenvolvimento de produtos específicos para nichos de mercado a fim de gerar uma análise mais segura. O desafio está em manter o volume de concessão sem que haja inadimplência. Por outro lado, o consumidor também está cada vez mais atento à sua capacidade de contrair crédito e, nesse ponto, nós também atuamos através de campanhas que auxiliem o consumidor a se planejar financeiramente. O programa “Meu bolso feliz”, por exemplo, é uma iniciativa para que não aconteça esse endividamento. Além disso, ele auxilia as duas pontas: quem concede e quem toma crédito.

CP:  Por falar no programa de Educação Financeira “Meu Bolso Feliz”, ele foi lançado no ano passado pelo SPC, com o intuito de ajudar a nova classe média brasileira. Qual a importância estratégica desse programa para a entidade e quais serão as ações de destaque em 2015?

RP: A função tanto do SPC quanto do movimento lojista é gerar ferramentas que auxiliem no bom desempenho de vendas e na rentabilidade do comércio no Brasil. Fazemos isso através de uma análise aprofundada do consumidor na hora da tomada de crédito, a fim de evitar que ele contraia uma dívida e não consiga honrar. Além disso, fazemos um trabalho de conscientização para que o consumidor tome crédito de acordo com a sua capacidade pagamento. Estamos colhendo bons frutos com esse trabalho de Educação Financeira, além de nos posicionarmos enquanto marca. Cumprimos essa função estratégica no desenvolvimento das vendas para o mercado brasileiro.

CP:  Você está envolvido diretamente com as Câmaras de Dirigentes Lojistas há quase 10 anos – assumiu a presidência da FederaçãoCDL/ em SC em 2005, depois e da CNDL em 2007 e agora assume o mesmo cargo no SPC. O que mudou no mudou no varejo| comercio lojista nos últimos 10 anos e quais serão os desafios para os próximos anos?

RP: O varejo brasileiro passou por muitas transformações nos últimos anos. A nossa base de investimento foi alavancada por um novo perfil de consumidor: a chamada nova classe C. As CDLs têm a obrigação de, além de representar a instituição, o dever de gerar ferramentas para que sejam utilizadas nos processos de gestão das empresas, em especial as micro, pequenas e médias.

CP: O Cadastro Positivo possui um importante papel para a liberação de crédito de forma mais fácil e menos burocrática, mas ainda apresenta muitas dificuldades em sua implantação. Na sua opinião, como resolver esses entraves?  

Desde que o cadastro positivo foi aprovado, há dois anos, eu afirmei que o projeto não iria “decolar”. O grande entrave no processo está na entrada dos consumidores no cadastro positivo. No Brasil, diferentemente do que vem acontecendo em outros países, optou por um modelo de adesão que necessita de uma autorização prévia do consumidor. Nos outros países o modelo é justamente o contrário: o consumidor é automaticamente inserido e, aquele que desejar, pede para que seu nome seja retirado. Essa burocracia fez com que o volume de brasileiros que optaram por ter o seu nome no cadastro positivo ainda seja muito pequeno, principalmente se observarmos a população de pessoas economicamente ativas no país. Nós continuaremos trabalhando dentro da legislação atual, mas seguimos tentando fazer com que o Congresso Nacional desburocratize o processo para que consigamos impulsionar o crédito no Brasil.

Deixe uma resposta

.footer-main { background:none; }